Título: País alerta Teerã sobre críticas por aproximação
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/02/2010, Internacional, p. A14
Segundo telegrama sigiloso, relação seria facilitada se opinião pública fosse favorável ao Irã
O Itamaraty alertou recentemente as autoridades iranianas sobre a existência de um descompasso entre a visão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a da sociedade brasileira sobre a aproximação entre os dois países. A mensagem foi enviada por meio de um telegrama sigiloso do Ministério das Relações Exteriores no qual é relatado um encontro entre a embaixadora Vera Machado, subsecretária de Assuntos Políticos, e o embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh.
O encontro teria ocorrido a pedido do secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota. Durante a reunião, a embaixadora brasileira ressaltou o fato de que a aproximação entre o Irã e o Brasil estaria sendo criticada pela "imprensa conservadora" do País.
Vera também alertou os iranianos sobre a situação dos direitos humanos no Irã, principalmente a situação da população bahai, discriminada pelo regime de Teerã. Sete dos líderes bahais no Irã estão sendo processados e o Brasil alertou sobre a situação dessas pessoas durante a reunião.
Para a embaixadora, a relação política e econômica entre os dois países estaria avançando de forma satisfatória, assim como a aproximação diplomática. Mas ela admite que essa aproximação seria facilitada se a opinião pública brasileira tivesse uma avaliação mais positiva a respeito do Irã.
A reunião ocorreu antes da primeira fase do julgamento dos líderes bahais, no dia 12 de janeiro em Teerã. Shaterzadeh mostrou-se inflexível, indicando que os acusados representam uma ameaça à segurança nacional e seriam espiões de Israel.
No dia 7, uma nova audiência do processo contra os líderes bahais ocorreu em Teerã e o embaixador do Brasil no Irã chegou a consultar o governo local para saber se poderia assistir ao processo. Sua participação foi negada.
O encontro em Brasília, apesar de não ter produzido nenhum resultado concreto, demonstra que o governo brasileiro sabe da resistência que há na opinião pública nacional em relação a sua aproximação com o Irã.
PREOCUPAÇÃO
Na Europa, países como França, Grã-Bretanha e Itália já admitem que a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã, prevista para ocorrer em maio, pode enviar "sinais errados" ao governo iraniano em relação a sua credibilidade como interlocutor da comunidade internacional.
Em Washington, o temor é o de que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, acabe usando o encontro marcado com Lula para mostrar ao mundo que seu regime não está isolado. Já o Brasil estaria, com a reunião, enviando um sinal para o mundo de que é "um país independente", segundo Teerã.