Título: A exportação de serviços
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/02/2010, Notas e informações, p. A3

As exportações brasileiras de serviços têm sido uma atividade limitada praticamente às grandes empresas de construção pesada. Com a experiência adquirida no País, elas ganhavam concorrências internacionais para execução de obras de infraestrutura em países em desenvolvimento da América Latina, do Oriente Médio e da África, valendo-se do "know-how" de como trabalhar nos trópicos, em condições muitas vezes inóspitas, com mão de obra local e prontificando-se também a transferir tecnologia para os países contratantes.

Essas construtoras brasileiras continuam muito ativas no mercado externo, agora não apenas nos países em desenvolvimento, como nos mais desenvolvidos. Além disso, deixaram de ser as únicas exportadoras de serviços. Com a internacionalização da economia, está em curso uma significativa expansão, no exterior, de empresas brasileiras de Tecnologia da Informação (TI) e de instituições financeiras. Em menor escala, de empresas da área de logística e transporte, de arquitetura e engenharia, redes de franquias, etc.

Recente estudo sobre comércio internacional da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) revela que o avanço do Brasil nas exportações de serviços, nos últimos anos, só perde para os da China e da Índia entre os países emergentes. Numa fase anterior, o fato de construtoras operarem no exterior estimulava as vendas de bens produzidos no Brasil, como veículos e certos equipamentos. Em alguma medida, isso ainda ocorre. Em 2004, uma empresa instalada no Brasil vendeu máquinas de votação eletrônica para as eleições de 2006 na República Dominicana. Contudo, o foco, hoje, é vender puramente serviços.

É que, com a internacionalização de empresas brasileiras, cresceu a demanda pelo desenvolvimento e manutenção de softwares para implantar e integrar seus sistemas, processar e armazenar dados, dar suporte, fazer aplicativos, criar serviços em rede, etc. Como seria de esperar, as multinacionais brasileiras frequentemente recorrem a quem lhes presta esses serviços no Brasil.

Uma parcela substancial da demanda é dos bancos públicos e privados do País que se expandem no mercado externo. A rede de bancos de capital nacional no exterior ampliou-se a partir da década de 1990 buscando, inicialmente, atrair depósitos e aplicações de imigrantes brasileiros espalhados pelo mundo, responsáveis por um volume considerável de remessas financeiras para suas famílias, ou mesmo para seus negócios, no Brasil. Posteriormente, houve uma tendência para a regionalização das operações dos bancos, tendo por base o Mercosul, com a abertura de escritórios e agências. E os bancos brasileiros, mais recentemente, têm feito aquisições de instituições financeiras em outros países, para onde levam a sua marca. Já é clara, assim, a tendência para uma expansão global. O objetivo é claro: há todo o interesse dos bancos em acompanhar um número crescente de clientes empresariais brasileiros que já atuam nos quatro cantos do mundo, além de buscar novos negócios onde quer que se instalem.

Diferentemente do que ocorre com a infraestrutura de transportes, que apresenta ainda graves deficiências, o setor financeiro e de mercado de capitais do Brasil é tecnologicamente avançado pelos padrões internacionais e conta com estrutura para atrair investidores.

Criou-se, assim, um ambiente favorável para que médias e grandes empresas do Brasil da área de Tecnologia da Informação, com subsidiárias em outros países, principalmente a Argentina e o México, possam competir com êxito com grandes multinacionais. Prevendo-se que o mercado mundial de TI tenha um crescimento de 4,6% em 2010, que deverá ser liderado pelos países emergentes, a Brasscom, a associação brasileira do setor, estima que as vendas externas de softwares e serviços de comunicação e TI possam atingir US$ 5 bilhões este ano.

Além do estímulo ao empreendedorismo, o desafio do Brasil nessa área, como em tantas outras, é a formação de mão de obra qualificada em quantidade suficiente para continuar avançando.