Título: Para petistas, é difícil prever se ela será líder
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2010, Nacional, p. A6/7

Eles se esquivam da tese de que lulismo se sobrepôs ao petismo

Prestes a embarcar em sua primeira corrida ao Palácio do Planalto sem ter o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato, o PT diz estar ciente de que o fato de elaborar programas e propostas de governo não significa que essas ideias serão de fato postas em prática. Após Lula ter descrito o Congresso do PT como uma "feira de produtos ideológicos", sinalizando em entrevista ao Estado que não se pode abrir mão do pragmatismo para governar, representantes da sigla preferem desviar da tese de que o lulismo se sobrepôs de vez ao petismo. Mas reconhecem que é difícil dizer, por exemplo, que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, poderá se transformar em uma líder à altura de Lula.

"Eu não ouso fazer uma previsão sobre isso. Depende muito do mandato que ela vai ter", afirma o novo presidente do PT, José Eduardo Dutra. "Qualquer comparação que envolva o Lula seria algo muito simbólico. Ele é o cara. Lula é um caso à parte."

Para o ex-governador do Acre, Jorge Viana, o PT ainda está no início de um processo para construir o nome de Dilma. Hoje, diz ele, a ministra e pré-candidata ao Planalto está "surfando" na força de Lula, do PT e do governo. "Nós ainda vamos ter de construir a força dessa candidatura. A Dilma ainda vai ser um dos nossos grandes ativos. Ainda não é."

Viana não se arrisca, por exemplo, a enterrar a possibilidade de Lula voltar a disputar o Planalto em 2014, apesar de ele ter dito ao Estado que não lançaria Dilma para que sirva de "vaca de presépio". "Não cabe a ele a decisão sobre se ele volta ou não para a política. Não está na governabilidade dele", observa Viana. Ainda assim, tanto ele como Dutra afirmam que, uma vez eleita, Dilma reúne todas as credenciais para se fortalecer e se transformar na escolha do eleitorado para mais um mandato.

Por outro lado, líderes petistas parecem unânimes em considerar "natural" o fato de as propostas do partido nem sempre serem aplicadas pelo governo. "Nós compreendemos isso em 1982, quando ganhamos nossa primeira prefeitura", ressalta o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP). "Partido é partido, governo é governo", acrescentaViana. "É um governo de coalizão. Não é um programa só do PT", emenda o senador Aloizio Mercadante (SP).

O ex-ministro José Dirceu propõe que, após deixar o governo, Lula se dedique ao fortalecimento do PT. Ainda assim, insiste que, sem o partido, o presidente não teria chegado onde está hoje. "O lulismo e o PT são a mesma coisa. O PT não existiria sem o Lula nem o Lula sem o PT."