Título: Soldado vive há 12 anos como cativo na selva
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2010, Internacional, p. A18

Pai do mais antigo refém das Farc pede pressão internacional para libertar vítimas ''esquecidas''

O soldado Pablo Emilio Moncayo não viu a cena das Torres Gêmeas caindo em Nova York. Também não tem e-mail e é possível que nunca tenha navegado na internet. Sequestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em dezembro de 1997, durante um ataque a um posto do Exército a 500 quilômetros de Bogotá, Moncayo é, com o cabo Libio José Martínez, o refém mais antigo da guerrilha. Passou os últimos 12 anos dormindo ao relento, fugindo de ataques do Exército e caminhando com os rebeldes em meio à selva colombiana.

Mas a sua saída do cativeiro pode estar próxima. As Farc prometem libertá-lo junto com o soldado José Daniel Calvo "nos próximos dias ou semanas", em uma operação cuja logística seria organizada pelo Brasil. O aval para a participação brasileira foi dado tanto pela guerrilha quanto pelo governo colombiano na semana passada.

"Estamos cheios de esperança apesar de outras duas tentativas de resgate terem sido frustradas no último ano", disse ao Estado seu pai, o professor Gustavo Moncayo, que já caminhou por metade da Colômbia, acampou na principal praça de Bogotá e se acorrentou para exigir um acordo humanitário entre o governo e a guerrilha. "Uma das diferenças é que agora temos o envolvimento de um país estrangeiro, o Brasil. Acredito que a pressão internacional pode acelerar a libertação dos reféns que ainda estão com a guerrilha."

Moncayo, o filho, faz parte de um grupo de 24 policiais e militares que a guerrilha pretende trocar com o governo por 500 rebeldes presos. Outras centenas de sequestrados para fins extorsivos também estão nos cativeiros das Farc. As famílias reclamam, porém, que desde o resgate da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, dos três americanos e dos políticos que estavam nas mãos da guerrilha, os dramas de seus parentes caíram no esquecimento.

No início de 2009, o Brasil cedeu dois helicópteros e uma equipe militar para resgatar seis reféns das Farc na selva colombiana. Na ocasião, o papel discreto do País agradou tanto à guerrilha quanto ao governo. Até por comparação com o envolvimento do venezuelano Hugo Chávez nos esforços para a libertação de alguns reféns em 2008 - o início de uma crise diplomática entre Colômbia e Venezuela que se arrasta até hoje.