Título: Trauma marca ex-reféns das Farc
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2010, Internacional, p. A18
Divórcios, troca de acusações e dificuldade de readaptação expõem sequelas de vítimas da guerrilha colombiana
Horas antes do pouso do jato Falcon que trazia o ex-senador colombiano Jorge Eduardo Géchem da base aérea de Santo Domingo, Lucy Artunduaga, sua mulher por mais de 20 anos, já esperava ansiosa. Géchem estava havia seis anos no cativeiro da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e os dois finalmente se reencontrariam.
Isso foi em fevereiro de 2008, mas o que na época parecia um desfecho feliz, hoje Lucy define como o início de um novo drama. "Já não sei quando sofri mais - se nos seis anos em que ele esteve sequestrado ou nesses dois últimos anos, marcados pelas brigas e a separação", disse Lucy ao Estado, explicando o que a levou a escrever o livro Os Amores que o Sequestro Mata. "Devolveram-me outra pessoa da selva."
A história não é muito diferente da vivida pelo ex-marido de Ingrid Betancourt, Juan Carlos Lecompte, que no início de ano publicou Ingrid e eu, uma Liberdade Agridoce, reclamando da "ingratidão" da ex-candidata presidencial em relação à sua luta para resgatá-la. E certamente é uma mostra das dificuldades de readaptação a serem enfrentadas pelo soldado Pablo Emilio Moncayo, o mais antigo refém das Farc (ele está há 12 anos em cativeiro), que a guerrilha promete entregar nos próximos dias - numa operação cuja logística será coordenada pelo Brasil.
"Sequestros como esses deixam traumas e sequelas dos quais é difícil se livrar", diz Ana María Ospina, psicóloga que trabalha no Fondelibertad, órgão do governo colombiano responsável pela coordenação dos recursos para a luta contra o sequestro e a assistência aos ex-cativos. "Viver numa situação-limite por tanto tempo e às vezes com o risco de morte iminente faz o sequestrado transformar suas crenças e lógica de vida. Quando ele é solto, tem de reconstruir desde os pequenos hábitos - como dormir em cama e tomar banho - até os vínculos com seus parentes, amigos e colegas. E nem sempre os problemas cotidianos de uma família, por exemplo, fazem sentido para quem viveu por tanto tempo pensando em como sobreviver até o dia seguinte."
Segundo a Fundação País Livre, que também presta assistência a reféns e seus parentes, quase 50% dos ex-sequestrados admitem ter sérios problemas com seus cônjuges por causa da experiência. E cerca de 25% sofrem sequelas psicológicas irreversíveis, o que muitas vezes dificulta sua reinserção profissional e social.
A própria Ingrid depois de ser libertada - e de cumprir a agenda de declarações à imprensa e agradecimentos à autoridades - deixou a Colômbia e afastou-se da vida política. Hoje, segundo o jornal francês France-Soir, vive nas Ilhas Seychelles com outro ex-refém, o americano Marc Gonsalves.
Desde 2008, 28 reféns deixaram o cativeiro das Farc - 12 foram entregues unilateralmente, 15 libertados numa operação militar e 1 fugiu. Outros 24, porém, ainda estão com a guerrilha. O drama dos reféns colombianos chama a atenção pelo tempo em que eles são ou foram mantidos em cativeiro. E até por causa desse diferencial as sequelas costumam ser mais graves e difíceis de superar que as de um sequestro tradicional. É normal, por exemplo, o ex-cativo querer passar algum período sozinho.
"De vez em quando ainda tenho a sensação de estar sendo perseguido e não raro me sinto incomodado com o barulho na cidade e a luz do sol", conta o ex-senador Luis Eladio Pérez, libertado com Géchem. Pérez ficou sete anos nas mãos das Farc; os dois primeiros apenas na companhia de guerrilheiros, que eram proibidos de dirigir-lhe a palavra. "Tinha um espelho em que fazia movimentos e sorria para os músculos da face não atrofiarem. Quase enlouqueci e terminei falando com as árvores", relatou em 2008.
Hoje, se considera um dos ex-cativos que mais bem conseguiu readaptar-se à vida em liberdade e concorre a uma vaga no Senado nas eleições de março. "Houve uma compreensão mútua, por minha parte e por parte da minha família, de que eles mudaram e eu mudei. Decidimos não ficar olhando pelo retrovisor, mas começar a reconstruir nossa história a partir do momento da libertação", afirma Pérez.
O ex-refém admite, porém, que não são todos que conseguem superar bem essa tarefa de reinserção. Um fator que não ajuda é o sentimento de abandono e a desconfiança que alguns desenvolvem em relação à família quando estão em cativeiro. "Depois de um tempo há os que duvidam do carinho dos parentes e da fidelidade da mulher", diz Pérez. "Só o que ajuda a melhorar um pouco isso são as mensagens transmitidas pela família em alguns programas de rádio."
Ana María acrescenta que não são todos os ex-reféns que conseguem processar o fato de que, enquanto viviam em condições tão adversas, os parentes tentavam levar uma vida normal, gastando em roupas, jantares e viagens. "Há um jogo de culpa e ressentimento", diz. Lucy, por exemplo, ressente-se do fato de o marido ter lhe pedido na Justiça a conta de todos os gastos dos seis anos em que ele esteve com as Farc. Ela atribui o divórcio a um caso amoroso que Géchem teria tido com uma companheira de cativeiro. "Apaixonou-se por outra", diz.
LIVROS
Quase todos os ex-reféns tentaram enfrentar o trauma do sequestro (e, de quebra, conseguir ajuda financeira para retomar a vida) com livros sobre suas experiências. Nas obras, eles relatam antes de tudo as atrocidades das Farc, que mantinham os reféns acorrentados a árvores e os faziam andar por dias a fio. Clara Rojas, por exemplo, conta como teve seu filho na selva no livro Cativa. A cesariana foi feita com uma faca por um guerrilheiro.
Mas algo que também chama a atenção é o fato de os cativos se atacarem uns aos outros. Clara relata seus desentendimentos com Ingrid e as hostilidades dos colegas por causa de sua gravidez e de seu filho.
Para muitos, ter uma criança no grupo, chorando com frequência, aumentava o risco de ataques militares - e a ordem dos guerrilheiros, nesse caso, era executar os reféns.
O americano Keith Stansell também descreve Ingrid como manipuladora e egoísta no livro que escreveu com os outros dois reféns americanos - e no qual ainda torna público os relacionamentos amorosos de companheiros casados.
"A questão é que na selva os reféns agiam de uma maneira que parecia aceitável naquela situação-limite, muitas vezes até motivados por um instinto de sobrevivência", diz Ana María. "Agora, em liberdade, refletem sobre o que viveram ali e, já inseridos em uma nova realidade e em um novo conjunto de valores, concluem que muito do que os companheiros e eles próprios fizeram não era razoável."
Pérez concorda: "A convivência foi difícil porque cada um estava tentando sobreviver", diz. "Numa situação como essa, todos se desnudam. Não há espaço para hipocrisia ou mentira."