Título: Projeção para Selic já chega a 12,75%
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2010, Economia, p. B5
Bancos preveem alta do juro de até 0,75 ponto em quase todas as reuniões do Copom até outubro
A julgar pelas projeções do mercado financeiro, o que não vai faltar na temporada eleitoral de 2010 são aumentos de juros. Diversas instituições financeiras preveem uma sucessão de aumentos de 0,5 ou 0,75 ponto porcentual em quase todas as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) até 3 de outubro, quando os brasileiros votarão no primeiro turno. E há projeções de mais elevações da Selic, estendendo-se até janeiro de 2011 (ver quadro).
Entre os bancos ouvidos pelo Estado, as estimativas de alta da Selic a partir da reunião de março ou abril até seu ponto máximo (em alguns casos, depois da eleição)variam de dois a quatro pontos porcentuais, o que levaria a taxa, hoje em 8,75%, para 10,75% ou 12,75%. Haverá cinco reuniões do Copom até o início de outubro, e quatro das cinco instituições ouvidas preveem aumentos em quatro delas. A quinta, o Banco Santander, projeta altas em todas.
A visão majoritária no mercado é de que a economia brasileira está crescendo a uma velocidade bem acima do seu "potencial", ou ao ritmo máximo em que pode se expandir sem provocar pressões inflacionárias.
"Estamos crescendo de 1,5% a 2% por trimestre, ou 6% a 8% anualizados, inegavelmente acima do PIB potencial - tem de desaquecer para não gerar inflação", diz Alexandre Pavan Póvoa, diretor executivo do Modal Asset Management.
Essa visão predominante no mercado, porém, não é corroborada por economistas sem ligações com o sistema financeiro, que acham exageradas as projeções de alta da Selic (ver matéria na página B6).
O mercado vê vários sinais de que as pressões inflacionárias estão próximas. Os índices de inflação mensais recentemente divulgados ficaram acima de 1%. Embora essa alta esteja ligada a fatores sazonais, como mensalidades escolares e alimentos, ela seria mais preocupante por estar acompanhada de um aumento das expectativas inflacionárias.
A pesquisa Focus do BC indica que a projeção média do mercado para o IPCA de 2010 subiu de 4,3% para 4,8% desde meados do ano passado. O Modal e o JGP preveem que o índice - usado para a meta de inflação - atinja 5,3% em 2010.
Outra preocupação é o mercado de trabalho. Segundo Fernando Rocha, da JGP, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), anualizados e dessazonalizados, indicam a criação de mais de 2 milhões de empregos por ano. "É um nível forte, que derruba rápido a taxa de desemprego, e leva a pressões de custo no mercado de trabalho", ele diz.
Para Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, uma observação preliminar indica que o nível de ocupação da capacidade na indústria e a pressão no mercado de trabalho já podem estar próximos ao que foi registrado no fim de 2007 e início de 2008.
As instituições acreditam que o previsto aperto monetário pelo BC terá como efeito reduzir o crescimento do PIB de 2010 para 2011 e trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5%. O Modal, por exemplo, prevê que a economia crescerá 6% em 2010 e em torno de 4,5% em 2011, com a inflação caindo de 5,3% para 4,5%.
Zeina Latif, economista-chefe do ING, observa que um fator decisivo para a inflação de 2010 é o comportamento internacional das commodities alimentícias. "Estou assumindo que o preço das commodities tende a se acomodar, conforme os Estados Unidos normalizem sua política monetária; se isso não acontecer, o cenário se complica".