Título: Ministra foi consultada sobre guinada à esquerda no programa de governo
Autor: Amorim, Silvia
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/02/2010, Nacional, p. A6
Uma operação política de bastidores conduzida pelo comando petista com aval da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, resultou na aprovação pelo 4º Congresso Nacional do PT de mudanças que colocaram seu programa mais à esquerda, mas apenas no plano formal.
As proposições - como redução da jornada de trabalho, combate ao monopólio da mídia e Imposto sobre Grandes Fortunas - foram, por acordo de cúpula, formatadas como sugestões a Dilma, sob argumento de que o programa real da candidata, mais amplo, será fechado com aliados. Na prática, viraram afago nas correntes do partido. E só. "Um doce para as crianças", resumiu um dirigente.
As mudanças foram fechadas depois que a maioria dos integrantes da Executiva Nacional reagiu negativamente à proposta de programa apresentada pelo assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. Considerada insuficiente, só teve apoio de dirigentes mais próximos do governo. O próprio Garcia então começou a discutir mudanças com correligionários.
O relato ajuda a explicar a contradição entre o que aconteceu na sexta-feira de manhã e, depois, à tarde, no congresso.
Mais cedo, a Executiva foi amplamente vitoriosa em todas as vezes em que os textos que propôs foram submetidos a voto. Assim, conseguiu manter a proposta de não nominar os partidos com os quais o PT pretende fazer alianças e a proposição de ter o poder de decidiras alianças nos Estados. Depois do almoço, contudo, a proposta inicial da Executiva para programa de governo foi emendada.
O episódio é visto no PT como uma demonstração inicial de Dilma de autonomia em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com as formulações aprovadas, a maioria saiu contente. As correntes da Executiva ganharam argumentos para reafirmar um posicionamento "à esquerda". E o comando do PT e Dilma poderão desprezar o que foi aprovado, alegando que os aliados não aceitam as propostas.