Título: Lula pede entendimento com Honduras em cúpula
Autor: Monteiro, Tânia
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/02/2010, Internacional, p. A8

Presidente chega a encontro de países da região no México tentando articular retorno de Tegucigalpa à OEA

CHEGADA - Lula desembarca em Cancún: depois do México, presidente passa por Cuba, Haiti e El Salvador em sua última viagem pela região

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou ontem um périplo de cinco dias por México, Cuba, Haiti e El Salvador, que deverá ser a última viagem pela região de seu governo. Lula chega a Cancún, para a Cúpula da América Latina e Caribe (Calc), com posição mais maleável em relação a Honduras, defendendo a busca pelo "entendimento" e o retorno de Tegucigalpa à Organização dos Estados Americanos (OEA), primeiro passo para o reconhecimento do governo eleito em novembro de Porfirio "Pepe" Lobo.

Embora o Brasil não pretenda levantar a questão, espera que outros países façam isso, para ressalvar uma série de condições que precisam ser preenchidas pelo novo governo hondurenho, para que se possa prosseguir a integração da região.

PRECEDENTE

O porta-voz do Palácio do Planalto, Marcelo Baumbach, deu o tom da disposição brasileira de voltar a se aproximar de Honduras. "O presidente Lula não quer que perdure uma situação de ruptura de diálogo com o governo hondurenho", disse Baumbach, acrescentando ainda que "o presidente Lula continua, claro, preocupado com a questão do precedente de ruptura institucional, mas acha importante o retorno de Honduras à OEA".

No entanto, o porta-voz fez questão de ressaltar que, embora Lula "considere importante que Honduras volte à OEA", é necessário que "qualquer solução que seja dada para essa crise não crie um precedente de apoio a movimentos golpistas na América Latina".

Baumbach lembrou que o Brasil "foi lançado, um pouco a contragosto, no cerne dessa questão, pela decisão do presidente (deposto Manuel) Zelaya de pedir abrigo na embaixada brasileira" e o presidente Lula não quer que perdure uma situação de ruptura do diálogo com o governo hondurenho.

Por isso, Lula vai à reunião da cúpula acreditando que é uma oportunidade privilegiada para discutir o tema com os países da América Latina e do Caribe e, a partir daí, tentar uma retomada desse diálogo com o governo de Honduras", afirmou Baumbach, lembrando que algumas medidas internas devem ser tomadas para que ocorra o retorno de Honduras à OEA e o reconhecimento do novo governo.

Na pauta da reunião de cúpula, ainda há tentativa de encontrar uma forma concreta de ajuda ao Haiti, com a previsão de uma reunião extraordinária da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) amanhã só para tratar de uma ajuda conjunta estratégica aos haitianos e do bloqueio dos Estados Unidos a Cuba.

Os presidentes pretendem discutir também a disposição da Grã-Bretanha de explorar petróleo nas Ilhas Malvinas, algo que está sendo rejeitado pela Argentina. Os presidentes emitirão uma declaração conjunta em relação a este e aos demais temas (mais informações nesta página).

Também deverão ser elaboradas declarações especiais sobre impunidade na Guatemala, Comunicado Especial sobre Cooperação em Imigração; e Declaração sobre o Convênio de Créditos Recíprocos (CCR), esta última apresentada pelo Brasil.

AGENDA

Lula chegou a Cancún ontem às 15h40 locais, com mais de uma hora de atraso. Hoje, Lula almoçará com o presidente mexicano, Felipe Calderón. Os dois devem tratar de negociações para um acordo de livre-comércio entre os dois países.

Depois, o presidente brasileiro segue para Cuba. O primeiro compromisso, antes de ser recebido pelo presidente Raúl Castro e pelo irmão Fidel Castro, será vistoriar o andamento das obras de ampliação do Porto de Mariel. O governo brasileiro emprestou US$ 150 milhões para o empreendimento.

De Havana, Lula viaja para Porto Príncipe, onde deve sobrevoar as áreas devastadas pelo terremoto que atingiu o país em 12 de janeiro. Na quinta-feira, ele se encontrará com o presidente haitiano, René Préval, para debater novas ações no apoio à reconstrução do Haiti.

No mesmo dia, Lula viaja para El Salvador para um encontro com o presidente Mauricio Funes. O presidente brasileiro retorna a Brasília no sábado.

Um forte esquema de segurança foi montado para receber os 25 presidentes que participarão da reunião de cúpula. Os chefes de Estado estão no resort Grand Velas, que está cercado por guardas armados, e onde o acesso é muito restrito e proibido à imprensa. No deslocamento para o jantar que ocorrerá no Parque Ecológico Xcaret, por exemplo, os presidentes usarão ônibus blindados.

Dois mil policiais e soldados foram mobilizados. Vários jipes e tanques do Exército estão espalhados pela estrada da Riviera Maya e pelos hotéis que vão abrigar os presidentes, jornalistas e ministros durante a reunião de cúpula.