Título: Destino de Kiev está atrelado ao da Europa
Autor: Eredia, Talita
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2010, Internacional, p. A20
Dizem que as revoluções sempre devoram seus filhos. Isso é certamente verdade para as "revoluções coloridas" - primeiro na Geórgia e, agora, na Ucrânia, onde o presidente Viktor Yushchenko, herói da Revolução Laranja, em 2004, foi excluído no primeiro turno das eleições presidenciais, há algumas semanas, tendo recebido menos de 6% dos votos.
A essa altura, a primavera de liberdade da Ucrânia já havia se deteriorado numa muito visível paralisia do desenvolvimento em razão de uma mistura de incompetência e corrupção. Seja quem for o candidato eleito dos que restaram do primeiro turno - a atual primeira-ministra, Yulia Tymoshenko, ou Viktor Yanukovich - a Revolução Laranja terá chegado ao fim.
Por isso, é interessante examinar retrospectivamente as esperanças que estavam associadas àqueles dias e noites maravilhosamente cheios de expectativas na Praça Maidan, no centro de Kiev, e na vitória eleitoral de Yushchenko. Foi uma vitória da democracia e da independência sobre fraude eleitoral e sobre o poder bruto.
Mas o que se passou no inverno de 2004 não teve a ver somente com o direito democrático do povo ucraniano à autodeterminação e à independência, mas também sobre o futuro da ordem europeia que emergia do fim da Guerra Fria. Na época, a Europa prontamente compreendeu o desafio e reagiu com firmeza. As eleições tiverem de ser repetidas e a democracia venceu.
IMOBILISMO
Olhando para trás, terá tudo isso sido em vão? De modo algum. Embora a Ucrânia enfrente complicações econômicas e sociais, não se deve esquecer que ela foi salva pelo destino, até hoje, de se tornar uma democracia "guiada" pela Rússia.
A mídia independente e a liberdade de expressão não foram restringidas na Ucrânia, e as eleições, desde 2004, foram julgadas livres e limpas tanto por observadores internacionais como pelos próprios partidos locais. E isso não é coisa garantida no Leste Europeu.
Além disso, ganhe quem ganhar o segundo turno da eleição presidencial, os temores pela independência da Ucrânia não estarão em questão, ao contrário do que ocorreu em 2004. Isso também é um passo à frente que não deve ser desconsiderado.
Frustrada pelo imobilismo e pela corrupção na Ucrânia, a Europa se afastou do país - uma posição que poderá se revelar um importante erro estratégico. A Ucrânia é uma das pedras angulares sobre as quais repousa a ordem europeia após a Guerra Fria. A Europa e a Rússia se encontram na Ucrânia, e o destino desta não só terá um papel crucial na definição da segurança europeia como será decisivo para as futuras relações russo-europeias.
INVESTIMENTOS
Com uma Ucrânia democrática e independente, as relações russo-europeias terão um caráter completamente diferente e muito mais positivo do que ocorrerá se o seu papel for fundamentalmente mudado e a história revertida. Assim, o futuro desse grande país é muito importante para a Europa. Em vista de seus próprios interesses, portanto, Bruxelas não pode se dar ao luxo de uma reação emocional de frustração.
É antes o oposto que é preciso: investimento econômico e político massivo e cooperação mais estreita. Lidar com a Ucrânia exigirá paciência e perseverança, mas há muita coisa em jogo para se escolher qualquer outro caminho.
Isso significa que, quando considerar uma "nova política oriental", a União Europeia precisará se concentrar em Kiev. Os Estados-membros orientais da UE não devem perder seu interesse no futuro da Ucrânia, caso contrário, o bloco como um todo poderá fazer o mesmo em breve.
Nisso, Alemanha e Polônia jogarão um papel central, pois ambas pertencem aos seis grandes Estados-membros da UE e têm a consciência estratégica necessária da importância da Ucrânia para a Europa. Por contraste, os interesses de França, Grã-Bretanha, Itália e Espanha não apontam nessa direção.
Essa foi outra lição aprendida em 2004. Somente se Alemanha e Polônia defenderem, em conjunto com outros Estados-membros do Leste Europeu, uma política "oriental" e de boa vizinhança com a Ucrânia, a política da UE terá o necessário poder e perseverança.
Portanto, se a Europa quiser buscar, de fato, seus próprios interesses no Leste Europeu, isso dependerá da coordenação entre os governos de Berlim e Varsóvia, e entre eles e a UE, em Bruxelas, e os outros Estados-membros. Alemanha e Polônia deveriam também garantir conjuntamente que o interesse da Europa numa Ucrânia democrática e independente não seja dirigido contra ninguém - não só em Kiev, como também em Moscou.
ALIANÇA
O novo ministro das Relações Exteriores da Alemanha falou em tentar recriar o velho "Triângulo de Weimar", entre França, Alemanha e Polônia. Isso não vai acontecer, principalmente porque a França tem pouco interesse. Uma cooperação sobre a Ucrânia, porém, poderá eventualmente levar à criação de um bem mais significativo triângulo Alemanha-Polônia-Rússia, que poderá dar um novo estímulo à política oriental da Europa.
*Joschka Fischer foi ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler da Alemanha entre 1998 e 2005