Título: Tensão marca eleição na Ucrânia
Autor: Eredia, Talita
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2010, Internacional, p. A20

Premiê Yulia e opositor Yanukovich disputam presidência sem favorito claro; protestos de 2004 podem se repetir

Após uma campanha eleitoral marcada por insultos trocados entre a primeira-ministra Yulia Tymoshenko e o ex-premiê Viktor Yanukovich, a Ucrânia vai às urnas hoje para o segundo turno das eleições presidenciais sem um favorito claro. Depois de anos de uma crise política agravada pela recessão, o país corre o risco de ser novamente palco de protestos por conta dos resultados da votação, como aconteceu durante a Revolução Laranja, em 2004.

Se a margem de vitória, de quem quer que seja, for muito pequena, é praticamente certo que o oponente contestará os resultados. Os dois candidatos acusam-se mutuamente de fraude. Yulia ameaçou repetir os protestos de 2004, quando milhares de pessoas ocuparam as ruas contra a eleição fraudulenta de Yanukovich. Os partidários do líder opositor têm permissão para promover uma manifestação com até 50 mil pessoas em Kiev no dia seguinte à votação.

A euforia de 2004 já não existe e os eleitores estão descontentes com a queda da qualidade de vida, a ampla corrupção e cansados das reviravoltas políticas que paralisam o progresso do país. Em 2009, a economia ucraniana encolheu cerca de 15%. Além disso, grande parte das promessas da Revolução Laranja não foram cumpridas.

Yanukovich, vencedor no primeiro turno, com 35% dos votos, tem sua base de apoio no sul e no leste industrial do país, onde predomina a minoria que fala russo. Yulia, segunda colocada, com 25% dos votos, tem seu eleitorado nas regiões ocidentais e no centro. Como os votos da Revolução Laranja se dividiram por 12 candidatos, a atual premiê espera convencer os eleitores indecisos e garantir a virada.

No governo, Yulia foi atingida pela recessão e por seu ex-aliado, o atual presidente Viktor Yushchenko, que obteve menos de 6% dos votos. A aprovação da premiê caiu de 47%, em 2005, para 14%, em 2009.

Apesar da rivalidade, ambos prometem melhorar as relações com a Rússia, deterioradas pelo política do atual governo, e reforçar a cooperação econômica com a União Europeia (UE). Apesar das promessas da Revolução Laranja de se aproximar do bloco, as relações permanecem mais próximas de Moscou muito em função da indiferença europeia.

"A UE sempre foi muito cautelosa e nunca disse nada sobre o ingresso da Ucrânia no bloco. Mas, se Bruxelas tivesse dito: "se vocês fizerem as coisas certas, poderão ser membros da UE", teria sido um grande incentivo para as reformas que o Ocidente quer ver na Ucrânia", disse ao Estado Steven Pifer, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia.

O diplomata acredita que, independentemente de quem vencer, o eleito terá uma relação bem menos tensa com Moscou, já que os dois mostraram disposição em negociar com o Kremlin. No entanto, Pifer avalia que a Ucrânia insistirá na aproximação com a UE. "Quando os ucranianos assistem o modelo europeu e sua prosperidade, passam a desejar aquele modo de vida. Além disso, existem os interesses econômicos e de parcerias com a UE. A questão é que a Rússia continuará sendo contra", diz o ex-embaixador.

Yulia defende a aproximação com a UE, estabelecendo objetivos ambiciosos para os próximos cinco anos e fazendo referências aos padrões de vida europeus. Durante seu governo, Yulia ainda encontrou uma sintonia com o premiê russo, Vladimir Putin.

A relação de Yanukovich não é tão forte com Moscou quanto em 2004, quando tinha o respaldo russo, mas ele afirma que pretende renegociar o acordo de fornecimento de gás com a Rússia e criar uma empresa de operação conjunta com o Kremlin para administrar os gasodutos ucranianos, por onde passa 80% do gás que abastece a Europa.

Yanukovich é favorável também à expansão da concessão à Rússia do Porto de Sebastopol, no Mar Negro, enquanto Yulia sustenta que a Constituição não permite que as forças militares russas tenham bases na Ucrânia após 2017.