Título: Remessas de lucros crescem 277% sob Lula
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/02/2010, Economia, p. B7

Dados do BC mostram que média anual de envio está em US$ 4,87 bi; sob FHC envio médio foi de US$ 1,29 bi

BRASÍLIA A média anual de remessas ao exterior de lucros obtidos por estrangeiros em aplicações financeiras no governo de Luiz Inácio Lula da Silva é quase três vezes maior que a vista na gestão anterior. Dados do Banco Central revelam que, na média, estrangeiros têm remetido anualmente US$ 4,87 bilhões em lucros financeiros desde 2003. A cifra é 277% maior que a verificada entre 1995 e 2002, quando somou US$ 1,29 bilhão por ano, em média.

Em 2009, foram enviados US$ 7,45 bilhões em lucros financeiros, o segundo maior valor da série histórica iniciada em 1979. O recorde ainda é de 2008, ano do agravamento da crise, quando foram remetidos US$ 8,52 bilhões. Boa parte do aumento dessas remessas é explicada pela maior importância que o mercado financeiro do Brasil passou a ter no mercado global após o grau de investimento que recebeu em 2008 das agências de classificação de risco.

"O quadro reflete um estoque elevado de investimentos estrangeiros em ações e títulos. Hoje, o estrangeiro está muito mais presente no mercado brasileiro. Além disso, os últimos dois anos foram afetados pela crise, que exigiu a remessa de lucros para a cobertura de perdas em outros países", explica a professora e pesquisadora do Instituto de Economia da Unicamp Daniela Prates.

As remessas têm crescido ininterruptamente desde 2003, primeiro ano do governo Lula. Na comparação com 2001, o total de remessas do ano passado é 560% maior.

A partir de 2007, o salto coincide com a volta da lucratividade das aplicações no mercado de ações, já que nos 12 anos anteriores, as remessas financeiras foram originadas exclusivamente dos juros pagos pelos títulos de renda fixa.

A percepção de economistas do governo é que o aumento dessas remessas era esperado, e não surpreende, por três fatores: 1) o Brasil passou a ter posição relevante no mercado financeiro global nos últimos anos, o que resulta em cifras crescentes; 2) ações brasileiras apresentaram forte valorização e geraram expressivo volume de dividendos no período recente; 3) a valorização do real favorece a remessa de lucros ao exterior.

Além de recordes, as remessas também têm passado por uma mudança estrutural. Durante 12 anos, entre 1995 e 2006, todas as transferências de lucros financeiros eram originadas de aplicações em renda fixa. Isso quer dizer que estrangeiros só ganhavam em investimentos que acompanhavam o juro brasileiro que, por muitos anos, foi o maior do planeta.

Desde 2007, porém, o quadro mudou e as ações voltaram a gerar lucro remetido para o exterior. Naquele ano, 24,2% das remessas financeiras ? cerca de US$ 4,31 bilhões ? foram originados no mercado acionário. No ano passado, a fatia das ações no total das transferências foi de 23,6% ou cerca de US$ 5,69 bilhões.

Para a professora da Unicamp, as remessas de lucros em ações e títulos devem ganhar cada vez mais espaço na comparação com os ganhos obtidos por investimentos produtivos, como aqueles feitos em filiais de multinacionais. ""À medida que o Brasil ganha importância como mercado global, as remessas se tornarão parte mais relevante na renda financeira que os estrangeiros obtém no Brasil. Com o tempo, esses investidores passarão a contar cada vez mais com o rendimento das ações e dos papéis brasileiros"", diz Daniela.

Apesar do crescimento das remessas, a maior parte do valor enviado ao exterior ainda tem origem em investimentos no setor produtivo. Ao todo, estrangeiros remeteram lucros e dividendos no valor de US$ 25,21 bilhões em 2009. Desse valor, a maior parte ? 70,5% ou US$ 17,76 bilhões ? foi gerada em investimentos produtivos, como nas filiais de multinacionais, e cerca de um terço ? ou US$ 7,45 bilhões ? foi produzido em aplicações financeiras, como ações e juros.