Título: Dois meses após divulgação de vídeo, deputado da meia renuncia
Autor: Pires, Carol
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/02/2010, Nacional, p. A4
Ao deixar cargo, Prudente se livra de processo por quebra de decoro e evita risco de perder direitos políticos
Dois meses depois de ter se tornado uma "celebridade" do "mensalão do DEM", com a divulgação do vídeo em que aparecia colocando dinheiro nas meias, o deputado distrital Leonardo Prudente (sem partido, ex-DEM), renunciou ontem ao mandato. Ao deixar o cargo, ele evita correr o risco de perder os direitos políticos, uma vez que era alvo, na Câmara Legislativa, de processo por quebra de decoro. Ao fim do processo, além da eventual cassação, ele poderia ter a inelegibilidade decretada. Outros dois deputados respondem a processo disciplinar - Eurides Brito (PMDB) e Júnior Brunelli (PSC). A renúncia de ambos também é dada como certa. A carta de renúncia de Brunelli está pronta e deve ser apresentada na segunda-feira. Eurides Brito, apesar de admitir reservadamente que vai renunciar, reiterou por meio de sua assessoria de imprensa que vai permanecer no cargo. "O verdadeiro guerreiro não abandona a batalha, mesmo que seja morto no caminho", enfatizou Eurides, em nota.
Prudente é um dos símbolos do esquema de corrupção descoberto no governo do Distrito Federal. Vídeo no qual ele recebe maços de dinheiro de suposta propina e os guarda nos bolsos das calças e até nas meias foi veiculado à exaustão pela imprensa. Ele também protagoniza gravação na qual reza ao lado do deputado Júnior Brunelli, agradecendo pela vida do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, principal testemunha da Operação Caixa de Pandora, que executava a função de distribuir entre assessores, secretários de governo e deputados distritais o dinheiro ilegal. "Os vídeos repetidamente apresentados são maldosos, visam a confundir o telespectador, gerar comoção, indignação e liquidar meu mandato, minha honra e meu futuro político", reclama o deputado, na carta de renúncia.
"MODELO AUTOFÁGICO"
No texto, ele explica que o dinheiro que recebe nos vídeos era de "caixa 2" - argumento usado pelo deputado em outras ocasiões. "Fui vítima de um modelo autofágico do sistema eleitoral brasileiro no qual prevalece a hipocrisia", afirma. Prudente também cita o ex-ministro José Dirceu, réu no processo do "mensalão do PT", para dizer que a crise em Brasília "seja um exemplo" aos candidatos que vão concorrer nas próximas eleições. "Embora o ex-ministro José Dirceu tenha afirmado em recente entrevista: mensalão não é corrupção e sim financiamento de campanha com caixa 2", discordo. "Mensalão, atividade da qual nunca tomei parte, é corrupção, sim, e financiar campanha com caixa 2 é ilegal."
Pouco antes de renunciar, Prudente divulgou outra carta, na qual reconhece e pede "sinceras desculpas pelo constrangimento que toda essa situação provocou". Cerca de 10 mil cópias dessa carta serão distribuídas aos eleitores do deputado, segundo a assessoria de imprensa dele.