Título: Na vida pública estamos sujeitos a esse tipo de calúnia
Autor: Oliveira, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/02/2010, Nacional, p. A9
Fernando Pimentel: ex-prefeito de Belo Horizonte[br][br]Para Pimentel, denúncia visa a desviar foco do 'mensalão do DEM' e prejudicar candidatura de Dilma à Presidência
O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) nega qualquer relação com esquema do mensalão petista. Ele descreve como uma "ilação absurda" a afirmação de que teria remetido ao exterior recursos oriundos de um contrato da prefeitura da capital mineira e que o dinheiro teria como destino o publicitário Duda Mendonça. Ele vê uma tentativa de prejudicar a campanha presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Eis a entrevista ao Estado:
Como o sr. recebeu a reportagem?
Com indignação. É claramente uma tentativa de jogar suspeição sobre mim, em um momento em que estou vinculado diretamente à campanha presidencial da ministra Dilma. É um jeito de desviar a atenção do foco principal hoje, que são os escândalos do DEM em Brasília. Fiquei indignado porque o que está posto é absurdo, não tem qualquer fundamento, como o futuro comprovará. Mas, na vida pública, hoje, estamos sujeitos a esse tipo de calúnia.
O sr. fala em calúnia, mas há uma investigação concreta contra o sr. em Minas, que é mencionada.
Nunca houve qualquer ação judicial envolvendo a CDL de Belo Horizonte e a prefeitura. Esse inquérito civil público ao qual eles se referem não virou uma ação. Nunca entrou na Justiça, nunca houve procedimento judicial. É uma investigação do Ministério Público Estadual que concluiu que não tinha nada. É simples assim. Trata-se de um convênio para colocar câmeras no centro da cidade, o chamado Projeto Olho-Vivo. Foi feito, as câmeras foram colocadas, quem fez a instalação foi a Câmara dos Diretores Lojistas e a prefeitura entrou financiando essa instalação. Depois, foi repassado o convênio à Polícia Militar de Minas Gerais, que é quem o gerencia atualmente. O projeto é um grande sucesso. A ilação que está sendo feita, uma "forçação de barra" completa, é porque um dos diretores da CDL à época do convênio depois foi arrolado no inquérito do mensalão como doleiro.
O sr. fala do Glauco Diniz. Qual é seu relacionamento com ele?
Nenhum. Nunca estive com ele na minha vida. Ele simplesmente assinou, entre outros tantos diretores da CDL. O sujeito, naquele afã de querer envolver mais um homem público, prefeito do PT, mais alguém, ele fala: "Ah, olha, esse Glauco Diniz, agora apontado como doleiro, assinou um dia um convênio com um prefeito do PT. E quem fez a campanha desse prefeito foi o Duda Mendonça. Então olha, tá vendo, estão mandando dinheiro ao exterior." Não tem nada a ver uma coisa com a outra. É uma ilação absurda, falsa, inaceitável e, evidentemente, não virou nada. Nunca fui inquirido, arrolado, intimado, indiciado nem denunciado em qualquer processo desses muitos processos do mensalão.
Mas os repasses para a empresa do Glauco Diniz não existiram?
Nosso convênio tinha valor de R$ 14 milhões, mas a prefeitura só repassou para a CDL R$ 4,4 milhões, referentes às câmeras. Foram três pagamentos, em fevereiro, março e abril de 2004. A informação que tenho é de que os repasses do Glauco Diniz ao exterior foram feitos, curiosamente, em abril, julho e agosto de 2003.
O sr. disse que isso foi colocado pois o sr. está na campanha de Dilma. É uma operação da oposição?
Não vou ser leviano a esse ponto, mas acho que é muita coincidência que justamente no momento em que estou com uma exposição grande, não como prefeito, mas como supostamente um dos coordenadores da campanha de Dilma, vem um vazamento de documento carimbado como sigiloso, o que não é prova de nada.
Qual é seu relacionamento com o Duda hoje?
Nenhum. Meu relacionamento com ele é vê-lo uma ou duas vezes por ano, em algum evento ou alguma circunstância.
Quanto o sr. pagou a ele pela campanha?
Não me lembro. Deve ter sido algo do tipo R$ 1,5 milhão.
E com o procurador?
Nunca o vi. Nunca fui intimado, nunca prestei depoimento. Isso tudo é uma grande ilação.
Por que esse inquérito foi anexado ao processo do mensalão?
Não sei.
No STF o sr. entrou na lista.
Não me incluíram em lista nenhuma. Este é um de milhares de documentos que estão lá dentro e não tem resultado.
O sr. tem recursos no exterior?
Não. Não tenho nada. Minha declaração de bens é pública e tem praticamente o mesmo tamanho de quando entrei na prefeitura.
De quanto é seu patrimônio hoje?
Não chega a R$ 1 milhão.
Que relacionamento o sr. teve com outros nomes do mensalão, como Delúbio ou Marcos Valério?
Tenho relacionamento normal com os meus colegas de partido. Delúbio quando era tesoureiro teve um relacionamento comigo como dirigente do PT. O companheiro Genoino teve muito contato comigo, isso é normal. Tenho ligações de amizade com companheiros, como o Zé Dirceu, o Genoino.
E Marcos Valério?
Conheço. O conheci socialmente em Belo Horizonte porque era uma pessoa do meio publicitário muito conhecido.
O sr. nunca teve nenhum negócio com ele?
Nem contato, nem contrato. Nenhuma relação de negócio com ele. Em Minas, ele nunca teve relação com o PT. Era muito mais próximo ao PSDB.
Há, então, como sr. sugere, uma operação para prejudicar Dilma?
Ou é muita coincidência, ou de fato há uma tentativa de envolver figuras que estão na campanha ou ligadas à ministra. Ressuscitar essa história de mensalão em um ano eleitoral a quem serve? A gente tem sempre que perguntar a quem isso serve. Deixo essa pergunta. Agora, não vou responder.
Isso é comandado por quem?
Eu só estou colocando a pergunta.
O sr. planeja alguma providência?
Vou examinar com calma essa matéria, vou consultar meus advogados e ver se é o caso de tomar alguma providência legal.