Título: Planalto ignora PMDB descartável nos Estados
Autor: Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/02/2010, Nacional, p. A11
Foco de interesse é o tempo no horário eleitoral e o acordo em Minas, para neutralizar força de Aécio
O presidente Lula e o PT costuram o acordo eleitoral com o PMDB mirando dois objetivos estratégicos: o tempo do aliado no horário eleitoral gratuito e o entendimento com o PMDB de Minas, para neutralizar a força do governador tucano Aécio Neves e facilitar a vitória da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff. Na definição de dirigentes peemedebistas, os interesses do partido nos demais Estados compõem o pacote do chamado "PMDB descartável".
Os peemedebistas mais experientes veem na corte e nos afagos do PT e de Lula apenas um movimento tático para fechar o entendimento nacional. Está claro para eles que o governo e o PT sabem que não levarão o PMDB por inteiro no apoio a Dilma e, até por esse motivo, já fizeram sua opção pelos companheiros que disputam com peemedebistas em vários Estados. É isso que rebaixa à nova categoria de "eleitoralmente descartáveis" até ministros de Estado, como o deputado Geddel Vieira Lima (BA), da Integração Nacional, e interlocutores de Lula, como o deputado Jader Barbalho (PA).
A preocupação do PT com o segundo maior colégio eleitoral é óbvia demais para causar alarido no PMDB. Afinal, os mineiros também constituem o interesse maior do PSDB do governador José Serra. Nos bastidores, tucanos e petistas repetem avaliação semelhante de que é lá que se dará a grande batalha, porque o candidato que conquistar a maioria dos mineiros ganha a eleição. "É indiscutível que ganhar em Minas é fundamental para qualquer candidatura e acreditamos que Serra será o vencedor, porque quem vai construir nossa vitória, da forma que achar mais eficiente, é o governador Aécio", provoca o deputado serrista Jutahy Júnior (PSDB-BA).
Mas foi o PMDB que passou os últimos dias alardeando que o acordo com o PT em Minas está fechado em torno da candidatura a governador do ministro das Comunicações e senador peemedebista Hélio Costa, que lidera as pesquisas de intenção de voto.
AUTOESTIMA
Se a cúpula do PT e Lula conseguirem "limpar a área" para Costa, tirando do caminho do PMDB mineiro os dois pré-candidatos petistas a governador - o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias -, a aliança nacional estará salva e a autoestima do PMDB também. O "PMDB descartável" sabe que, nem de longe, Lula, Dilma e o PT empenharão esforço equivalente para resolver as outras disputas regionais.
No Pará, por exemplo, Jader está à frente da governadora Ana Júlia Carepa (PT) nas pesquisas eleitorais, mas não tem dúvida de que os petistas fecham com ela na briga pelo governo local. A questão é mais vista como um problema de Jader, do que do PT ou até mesmo do PMDB.
Todos estão de acordo na compreensão de que a escolha do vice definirá se o PMDB entra na aliança pelo portão principal, com direito a salamaleques que vão além do tapete vermelho estendido na entrada, ou se o ingresso se dará de forma acanhada, pela porta dos fundos. A avaliação geral é de que, se não conseguir emplacar o presidente nacional do partido e da Câmara, Michel Temer (SP), no posto de vice de Dilma, o partido entrará na aliança humilhado, na condição de coadjuvante e não de protagonista.
É precisamente por isso que o maior temor de todos os grupos é o de que o acerto em Minas dê errado e o PT consiga convencer Costa a aceitar a vaga de vice. A cúpula do partido na Câmara e no Senado não vê muito como vetar o ministro, mas tampouco se considera representada por ele. Não o vê com o perfil de vice que vai defender o cumprimento dos acertos feitos em cada Estado e, sem um porta-voz, teme ser "rifada" pelo PT ao longo da campanha.