Título: O consenso e a campanha
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2010, Notas e informações, p. B3
O presidente Lula fez a coisa certa ao repelir o chamado "terrorismo eleitoral", quando a alta de um candidato ao Planalto nas pesquisas de intenção de voto provoca baixas nas bolsas de valores e outras turbulências nos mercados financeiros pelo temor de que esse candidato possa "estragar tudo". Efetivamente, não há hipótese, como disse ele, de que o País e os seus interlocutores estrangeiros entrem em surtos de insônia a cada fornada de sondagens sobre os possíveis desfechos desta sucessão presidencial. Embora tenha procedência certo nível de incerteza a respeito da solidez da fidelidade da ministra-candidata Dilma Rousseff ao pragmatismo que norteou os dois períodos de governo do seu patrocinador ? ou quanto ao vigor de sua liderança para resistir, caso eleita, às pressões dos setores mais doutrinários do PT por uma guinada à esquerda ?, não é nada que se compare ao grande medo de 2002 diante da perspectiva de vitória de Lula.
Nos dias que antecederam à sagração de Dilma como a "pré-candidata" petista, quando ela mesma precisou incluir no programa partidário para o seu eventual governo compromissos explícitos com a manutenção dos fundamentos macroeconômicos assentados nos anos Fernando Henrique (o que ela confirmaria "sem sombra de dúvida" na sua fala no 4º Congresso Nacional da legenda), companheiros graduados diziam maldosamente que o tucano José Serra é quem devia deixar clara a sua posição sobre a política monetária e a cambial ? dois dos pilares das diretrizes econômicas encampadas por Lula que não seriam do seu inteiro agrado. Isso caracteriza uma situação sem paralelo na história da democracia brasileira, justificando as declarações do presidente de que "a eleição não pode mais causar qualquer sinal de terrorismo no Brasil". Mas ele toma liberdades com a verdade ao se colocar no papel de vítima do que chamou "aquela ideia imbecil" ? o retrocesso que a sua vitória poderia desencadear.
A ideia, no entanto, era plausível. Apesar do aggiornamento político do então tetracandidato presidencial ? expresso na política de alianças com partidos que o velho PT simplesmente abominava e na escolha de um capitalista puro-sangue para vice ?, o retrospecto não era tranquilizador. Quando a campanha lulista dava a largada, a última palavra oficial do partido sobre o que fazer no governo era ainda a Carta de Olinda, de dezembro de 2001, que pregava, sem eufemismos, a "ruptura". E ainda que houvesse um quanto de especulação no nervosismo dos mercados, a crispação tinha inegáveis bases objetivas. Caso não tivesse, Lula e o alto comando de sua campanha não se sentiriam compelidos a produzir a Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002, consignando em ata o respeito aos compromissos assumidos pelo País e a continuidade das políticas macroeconômicas.
O documento tornou-se um marco histórico, tal como a abertura ao pragmatismo adotada pela esquerda democrática europeia desde o primeiro governo do Partido Socialista Operário Espanhol, depois da derrocada do regime franquista, sob a liderança de Felipe González, no início dos anos 1980. No Brasil, a carta subscrita por Lula foi o que também tornou possível outro fato inédito ? a civilizadíssima transição de governo entre tucanos e petistas. Passados sete anos, o muito que os separa e antagoniza não abalou o consenso sobre os pontos essenciais da gestão econômica nacional. Dele não compartilham tão somente os radicais de olhos arregalados da periferia do sistema político. No futuro é quase certo que o período 1995-2010 será considerado ? dessa perspectiva ? como um traçado ininterrupto. Naturalmente, os princípios não subsistem por si. A eles se seguem práticas, ênfases distintas, capacidades e competências desiguais ? numerosas o bastante para alimentar o debate eleitoral sobre o que deve ser mantido ou mudado.
Mas não há, ou não deveria haver, motivo para que a campanha deste ano seja um torneio de baixarias. Dilma Rousseff e o seu provável adversário José Serra, que parecem respeitar-se mutuamente e se mostram cordiais um com o outro em público, não podem permitir que a sua rivalidade e a mala sangre entre petistas e tucanos façam da campanha deste ano um torneio de agressões. Se hoje não há clima para "terrorismo eleitoral", nas palavras de Lula, seria deplorável se os candidatos viessem a criá-lo.