Título: Estados não têm como fiscalizar produtos
Autor: Leite, Fabiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/03/2010, Vida&, p. A24
Testes para verificar se itens possuem o que prometem são de alto custo
Os programas de fiscalização de alimentos in natura e industrializados de Estados e prefeituras ainda não têm capacidade para analisar produtos funcionais e que alegam benefícios à saúde, segundo William La Torre, farmacêutico com especialização em vigilância sanitária de alimentos.
Segundo o especialista, os testes para verificar se um produto funcional realmente tem os componentes benéficos à saúde que alega exigem "tecnologia profunda".
"Comprovar o que está na papelada não é possível. As vigilâncias locais conseguem fazer testes físico-químicos e biológicos (para verificar contaminações) e avaliar a correção dos rótulos. Mas o restante é um quadro de complexidade para o qual os laboratórios dos governos ainda não têm estrutura", afirmou. "Seriam necessários convênios com universidades."
Nem ONGs de consumidores que tradicionalmente testam alimentos, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), têm capacidade financeira para realizar a fiscalização dos produtos.
"Os apelo dos produtos é cada vez mais forte, como a informação de que têm mais vitaminas, e precisamos ter condições de monitorar isso."
La Torre destaca ainda que é extremamente difícil avaliar se os benefícios prometidos serão iguais em todas as pessoas sem considerar sua dieta. Produtos enriquecidos com ferro, por exemplo, competem com o cálcio proveniente de outros alimentos, exemplifica. Assim como gorduras podem facilitar a absorção de determinadas vitaminas. "Não nego o benefício do licopeno (antioxidante presente no tomate), por exemplo, mas não sabemos quanto molho de tomate teríamos de consumir para ter o efeito."
MERCADO EM ASCENSÃO
A Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) não quis comentar na última sexta-feira os questionamentos feitos aos alimentos com alegações de benefícios à saúde.
Segundo Denis Ribeiro, diretor de economia da Abia, o mercado dos produtos de bem-estar cresce 9% ao ano, comparado a 8% dos demais alimentos industrializados no mundo, mesmo fenômeno registrado no Brasil. Só produtos enriquecidos (com vitaminas) e funcionais movimentaram globalmente, em 2008, R$ 228 bilhões.
A entidade enfatiza que o mercado visa pessoas que não cozinham, têm pouco tempo para buscar e preparar alimentos naturais, mas que procuram itens saudáveis. "No Brasil, algumas pessoas ainda têm empregada, mas, no futuro, será como lá fora, onde ninguém tem. À medida que a educação e as informações sobre saúde melhorarem, o mercado crescerá. A tendência da sociedade urbana, em que não se cozinha, é facilitar o reforço alimentar", disse Ribeiro.