Título: Palestinos não dialogam sem recuo de Israel
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/03/2010, Internacional, p. A16
Segundo a Liga Árabe, israelenses devem conter construções de casas
APELO - Biden (D) com Abbas em Ramallah: ''As partes devem construir atmosfera de apoio ao diálogo''
O presidente da Liga Árabe, Amr Moussa, afirmou ontem à noite que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, lhe disse que não tomará parte das negociações indiretas com Israel, que haviam sido anunciadas pelo governo americano na segunda-feira. "O presidente palestino decidiu que não entrará nas negociações agora. O lado palestino ainda não está pronto para negociar sob as circunstâncias atuais", disse Moussa após uma reunião de emergência de representantes árabes no Cairo.
Delegados da Liga Árabe disseram que não haverá negociações diretas ou indiretas entre os palestinos e israelenses "sem o fim das medidas adotadas por Israel", que aprovou a construção de 1.600 casas em Jerusalém Oriental.
Em visita à Cisjordânia, o vice-presidente americano, Joe Biden, condenou a decisão israelense de construir em território palestino. A medida foi anunciada na terça-feira, enquanto Biden iniciava um giro pela região para avançar o chamado "diálogo indireto" entre palestinos e israelenses. Constrangido, Israel pediu desculpas pelo momento inoportuno do anúncio, mas disse que manterá seus planos.
"A decisão do governo de Israel de avançar a construção de novas casas em Jerusalém Oriental mina aquela confiança tão necessária para se iniciar negociações", afirmou Biden em Ramallah ao lado de Abbas. "É fundamental que ambas as partes construam uma atmosfera de apoio ao diálogo, e não uma que o complique." O vice-presidente alertou ainda que não é prudente "inflamar tensões".
Biden reafirmou o compromisso da Casa Branca com a criação de um Estado palestino "viável e contínuo", em um claro sinal de que os EUA esperam uma retirada israelense significativa da Cisjordânia. A Autoridade Palestina (AP) afirma que os atuais assentamentos de Israel em territórios ocupados em 1967 tornam inviável um Estado palestino funcional.
Um integrante do gabinete do primeiro-ministro de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, desculpou-se e disse que a coincidência entre o anúncio e a visita de Biden causaram "grande constrangimento". A expansão em Jerusalém Oriental foi revelada pelo Ministério do Interior de Israel - pasta controlada pelo partido direitista e religioso sefaradita Shas. Segundo assessores de Netanyahu, o partido da coalizão teria tomado a iniciativa à revelia do gabinete.
A diplomacia americana considerou "incomum" o comportamento de Israel diante da visita de Biden. "Estamos conversando com o governo israelense para entender o que aconteceu", disse P. J. Crowley, porta-voz do Departamento de Estado.
O embaraço ofuscou a iniciativa americana de relançar negociações de paz. A Casa Branca havia afirmado no fim de semana que tanto palestinos quanto israelenses aceitariam um "diálogo indireto", mediado pelos EUA, para avançar em direção à paz. A flexibilização das posições dos dois lados teria sido alcançada pelo enviado do presidente Barack Obama à região, George Mitchell. Durante sua campanha, Obama afirmou que as negociações de paz seriam um dos pilares de sua política para o Oriente Médio.
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