Título: A verdade coletiva de Lula
Autor: Romano, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2010, Espaço aberto, p. A2

No episódio que abalou a imagem dopresidente - o símile entre presos cubanos em greve de fome e bandidos- não sigo os revoltados pelas suas frases. Agradeço por ele usar umaverdade insofismável sobre a sua atitude mental. Desconfio dos que, natentativa de manter aparências, dizem ter Luiz Inácio da Silva cometidoum "escorregão". Se falam de escândalo, talvez acertem. O termo"escândalo" vem do grego "skadzein", cujo significado é "mancar".Ninguém nega que o presidente tenha "mancado" ao perder o freiodecoroso na língua. Ele, no entanto, abriu sua alma, exibindo diante doBrasil e do mundo a ideologia que de fato o move.

O público já testemunhou outras distrações do hoje presidente. Emhistórica fala a um jornal paulista, ele proclamou que "a liberdadeindividual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que vocêcria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece.Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que vocêprecisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidadepossa participar das decisões" (Lula, 4/1/1986). E acrescentou: "Acapacidade de você atender aos desejos individuais sem que issoprejudique os interesses coletivos é uma questão sobre a qual tenhodúvidas. Precisamos promover esta discussão dentro do PT."

Segundo os debates partidários, amigos transformam-se em inimigos docoletivo ideado pelos petistas. "Você pode excluir o grande empresário,a multinacional, mas você precisa discutir se vai excluir o pequeno emédio proprietário do campo e da cidade."

"Eu não quero", disse o sindicalista, "ser o dono da verdade, osenhor da razão". A tolice torna-se ameaçadora no complemento da frase:"Eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva."Treblinka, Auschwitz, o Gulag e Cuba resultam de tais "verdadescoletivas". Segundo aquela doutrina, um preso político cubano só podeser bandido, pois vai contra a verdade, propriedade do Estado.

A exclusão dos inimigos (todos os que não se encontram no partido)se enraíza na cultura petista. Mas após derrotas acachapantes,aconselhado por especialistas em marketing político, Lula maquiou afala dogmática. Chegaram as alianças eleitorais, a persuasão dirigidaaos setores médios e, last but not least, o elo com setores daimprensa. Assustar o grande empresário, a multinacional, além dopequeno e médio proprietário do campo e da cidade, perceberam ospetistas, era receita de fracasso. Surgia o esboço do "Lulinha paz eamor" e da Carta ao Povo Brasileiro. Líderes como Antônio Palocciensaiaram privatizações "neoliberais" em seus domínios. O açototalitário se cobria com o chantilly propagandístico. Era superada aera das pizzarias e padarias para o PT. Começava o tempo dos bonsrestaurantes, das garrafas de Romanée Conti. Oligarcas passaram a serconvidados de honra no convescote: Antonio Carlos Magalhães, JoséSarney e outros receberam novos títulos, pois garantiam agovernabilidade...

A encenação convenceu. Grandes empresas, multinacionais, pequenos emédios proprietários, boa parte da imprensa, todos azeitados pelosdividendos de uma política econômica antes execrada no petismo,aplaudiram o "novo PT". Com as loas ao suposto bom senso, carisma equejandos de Luiz Inácio da Silva, entoadas no Congresso pela oposição,veio o apoio às iniciativas governamentais na economia e adjacências.Quanto maior o sucesso entre os antigos inimigos, maior o cinismo dospetistas em relação a si mesmos. Discutir a divida externa, romper como Fundo Monetário Internacional (FMI), controlar o capital estrangeiro?Bravatas. Política radical e socialista? "Nunca fui de esquerda",asseverou o líder, aplaudido em delírio.

Passaram os dias e, arrogantes, seguros de manter o mando, ospetistas começaram a soltar os demônios reprimidos. Já no episódio do"mensalão" sobraram raios e trovões contra a "imprensa burguesa", osempresários, os promotores públicos. Mas o presidente foi à TV e pediudesculpas, dizendo não saber a causa de suas escusas. Agora confessa:sabia. Chegaram os aloprados, os projetos de mordaça na mídia, a defesade Sarney a todo custo (inclusive ao preço da censura, como no casodeste jornal) e as unhas ideológicas apareceram, somadas aos caninos.Lenta e inexorável, ressurge a busca de uma hegemonia ditatorialmantida pelos escravos voluntários, os militantes. Estes tudo fazempara garantir o poder aos donos do partido. Quanto mais seguros de queficarão no Planalto por mil anos, maior a grosseria dos ataques contraquem não dobra espinha e ouvido às ordens palacianas.

Os cosméticos tombam da face governamental. A lógica de Luiz Inácioda Silva é a mesma, desde 1986. Naquela época importava defender osdireitos humanos (nunca incluídos os presos de Cuba) para manter acoesão interna do PT, no qual ombreavam stalinistas e católicos,trotskistas e adeptos da ecologia. Os religiosos defenderam os direitoshumanos contra a ditadura, foram adversários das violações em todos ospaíses e sob qualquer ideologia. Quem defende direitos não escolheideologia a ser protegida. Mas, com a chegada do PT ao poder, oscatólicos desembarcam do navio. Ficam os adeptos da razão cabocla deEstado.

A fala do presidente contra os presos cubanos, assimilando-os abandidos, tem uma gênese mais ampla do que o PT. Ela se enraíza naspurgas nauseantes, como nos Processos de Moscou, em 1936. Ali nãoexistiam dissidentes, mas terroristas. Só possui direito quem se abrigaà sombra do partido. O resto é inimigo e... bandido.

Obrigado, Lula, por desvelar o que sempre esteve em seu íntimo. E por nos advertir sobre o que virá nos próximos dias.

FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNICAMP, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "O CALDEIRÃO DE MEDEIA" (perspectiva)