Título: Para o que der e vier
Autor: Dora Kramer
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2010, Nacional, p. A10

Percebidopor aliados e adversários como uma incógnita no cenário eleitoral, odeputado Ciro Gomes não vê razão para o mistério: é pretendente acandidato à Presidência da República pelo PSB.

Eventuais variações não serão decorrentes de sua vontade, mas umaimposição das circunstâncias. Se o partido preferir apoiar DilmaRousseff, seguirá a orientação preservando, porém, a condição de"eleitor crítico".

Quanto à candidatura ao governo de São Paulo, só existe uma "ínfima"possibilidade: se o presidente Luiz Inácio da Silva avaliar que é amelhor solução para atenuar a vantagem do candidato do PSDB àPresidência, José Serra, em São Paulo.

Aloizio Mercadante não daria conta desse recado?

"Claro, acho que dá perfeitamente", diz Ciro para acentuar a visãode que São Paulo "não precisa dele" e, ao mesmo tempo, deixar bem claroque não tem a menor identidade com o projeto.

Nada a ver com a reação contrária do PT paulista. Para esta, reserva ironia: "Rugas de preocupação."

Então, por que mudou o domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo?

Antes da explicação, um parêntese: o domicílio voltará ao Ceará assim que possível.

A mudança ocorreu porque em setembro, antes de vencer o prazo para atransferência do domicílio, foi feita uma avaliação conjunta entre opresidente Lula e a direção do PT. Chegou-se à conclusão de que ahipótese de Ciro ser candidato em São Paulo poderia levar José Serra adesistir da candidatura presidencial para não arriscar a perda docontrole do PSDB no Estado.

Ademais, como o irmão de Ciro, Cid Gomes, é governador do Ceará,Ciro só poderia concorrer a deputado federal, nunca a deputadoestadual, senador ou governador, por razões legais. E da Câmara dosDeputados Ciro quer distância.

Além de se sentir um inútil - "ponho o terno, bato ponto, denunciomilhões de safadezas e a mídia não dá a menor bola" -, está farto deconviver com o ambiente de negociatas que testemunha diariamente esustentam suas críticas à "moral frouxa"da parceria entre PT e PMDB,extensivas à aliança PSDB-DEM.

Uma das razões pela qual Ciro acha que contribui sendo candidato apresidente e que, ao contrário de Dilma Rousseff, pode levar adiscussão sobre a necessidade de se alterar as relações promíscuas eviciadas entre os Poderes.

"Essas coisas não são feitas em nome da governabilidade coisanenhuma. São feitas em nome da manutenção do poder puro e simples eacho que há espaço e possibilidade de se construir, com o poder daPresidência e a compreensão da sociedade, uma relação diferente."

Muito bem, mas esse discurso, na campanha, não acabaria por ser de crítica a Dilma?

"De fato. Se me perguntam, digo que tenho mais experiência, projeto,circunstância política e posso dizer coisas que ela não pode."

Ciro vê Dilma como favorita, mas não enxerga o quadro como definido.Lembra que nas eleições anteriores as pesquisas de fevereiro nãorepresentaram os resultados das eleições e estabelece três fatores dedefinição: o clima, a persona política, a qualificação do candidato.

O clima, segundo ele, é favorável a Dilma. No quesito "persona", elae Serra se igualam na carência de empatia, "eu sou o docinho da vez".

No item qualificação do candidato, elogia o preparo dosconcorrentes, reconhece a substância do principal oponente, mas quandoo assunto é excelência não tem para ninguém: "Eu me basto."

Pé no chão. O presidente não precisaria ir tão longe, até o OrienteMédio para mediar conflitos. Bastaria ter exercitado suas habilidadesaqui mesmo, mediando no Congresso assuntos importantes como as reformaspolítica, trabalhista, sindical e tributária.

Ou patrocinar o entendimento federativo em torno dos royalties do petróleo.

Fora dessa. A assessoria do líder do PMDB na Câmara e relator doprojeto de regulamentação da exploração do petróleo, Henrique EduardoAlves, esclarece que a emenda Ibsen Pinheiro não foi incluída por eleno relatório, mas apresentada direto ao plenário.