Título: Palavras-chave revelam essência de discursos
Autor: Toledo, José Roberto de ;Bramatt, Daniel
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/03/2010, Nacional, p. A10

As 13 falas que Lula fez neste mês, por exemplo, uma coisa tiveram em comum: a preponderância da palavra ""gente""

Agrande diferença entre os discursos do presidente Luiz Inácio Lula daSilva e os dos presidenciáveis favoritos é a quantidade de "gente". Nãona plateia, mas na boca do orador. Simbolicamente, "gente" é a palavramais repetida por Lula em seus pronunciamentos, e uma das chaves paraentender seu poder de comunicação. Ela é dita com muito mais frequênciapor Lula do que por José Serra (PSDB) ou Dilma Rousseff (PT).

Tomem-se os 13 discursos que Lula fez neste mês de março, antes deviajar para o Oriente Médio. Eles ocorreram em situações diversas elocais tão distantes quanto Londrina (PR) e Juazeiro (BA). Mas umacoisa tiveram em comum: a preponderância da palavra "gente".

A "nuvem de palavras" reproduzida nesta página reflete, no tamanhode cada vocábulo, a frequência com que foi pronunciado no conjunto dos13 discursos. "Gente" foi o mais recorrente, com 333 citações. Namaioria delas, como sinônimo de "nós": "a gente vai", "a gente quer","a gente tem", "a gente possa".

"Lula fala para os milhões, fala com o coração e para corações.Busca criar vínculos, relações pessoais, bem ao feitio do homemcordial, familiar e emocional. Não me admira que a palavra maisutilizada seja mesmo gente", analisa o cientista político Carlos Melo,do Instituto de Ensino e Pesquisa. "Como dizia uma canção do CaetanoVeloso, gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. O verso caberiacom justeza na boca do presidente; emociona e está em sintonia com oantigo "sem medo de ser feliz"."

Para comparação, tome-se o discurso de Dilma quando foi lançadaextraoficialmente candidata a presidente no 4.º Congresso do PT, emfevereiro. O que mais se ouviu a ministra-chefe da Casa Civil dizer noevento foi "Brasil", "vamos", "país" e "todos". Não por acaso.

"Brasil, um país de todos" é o slogan do governo Lula. E o seu"vamos" pode ser lido como "sinônimo" do "a gente" tão empregado pelochefe, pois pressupõe o sujeito oculto "nós". O tempo verbal futuro étípico dos candidatos, das promessas. No caso de Dilma, o "vamos" foiseguido dos verbos que sustentam sua candidatura: "manter","aprofundar", "continuar", "seguir", "reforçar". A ideia implícita éque "em time que está ganhando não se mexe".

Esse discurso da presidenciável petista marca uma transformação, dasua comunicação e do seu personagem público. Em 2007, no discurso delançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as palavrasque mais saíam da boca de Dilma eram "milhões" e "bilhões". Era agerente falando. Agora, é a candidata.

Dada a demora de Serra em assumir que está de fato disputando oPalácio do Planalto, ainda não há um discurso típico de candidato quetenha saído de sua boca. Como escreveu a colunista Dora Kramer noEstado, o que mais se aproxima disso é o pronunciamento que ele fez aoreceber o governo paulista, há três anos, quando disse que iriagovernar o Estado voltado para o Brasil.

Nesse discurso, em janeiro de 2007, as expressões mais usadas pelotucano foram "São Paulo", "país", "Brasil", "governo", "ser" e"política". Acumulam-se expressões como "voltado para o Brasil", "vitalpara o Brasil", "vale para o Brasil". E "país" é "o nosso país". A"política" Serra associou tanto a conceitos positivos("transformadora", "estabilidade") quanto a negativos ("mal","fragilidade").

Este ano, durante cerimônia de homenagem ao centenário de TancredoNeves no Senado, o governador fez um discurso marcado pelos termosinstitucionais. Falou em "Nova República", em "presidente" e em"crescimento". Nos discursos em inaugurações e lançamentos de obras,outra palavra predileta de Serra é "desenvolvimento".

Como era de se esperar, "Brasil" e "país" são hits de Lula, além doindefectível "companheiros", usado 192 vezes, no masculino e feminino,no singular e no plural. Entre as pessoas, a mais citada foi "Dilma",47 vezes. Na maioria delas, o presidente se referiu a ela como"companheira", às vezes como "ministra", mas nunca como candidata.Porque, ele sabe, a legislação eleitoral não permite.