Título: País tem 16 milhões de eleitores duas caras
Autor: Bramatti, Daniel
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/03/2010, Nacional, p. A12

Declaração de voto não condiz com posicionamento em relação ao presidente

Amais recente pesquisa do Ibope sobre a sucessão presidencial revela quecerca de 12,5% dos eleitores se apresentam com "duas caras" aomanifestar a intenção de voto. Eles são os que querem eleger a pessoaapoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas citam José Serracomo seu candidato favorito. Ou os que preferem alguém da oposição, masse dizem inclinados a votar na petista Dilma Rousseff.

Essas declarações de voto paradoxais e incoerentes revelam um altonível de desinformação e de desinteresse na eleição, segundo MárciaCavallari, diretora executiva do Ibope.

O levantamento do instituto, divulgado na última quarta-feira,mostra que a maioria absoluta dos eleitores (53%) quer votar nocandidato apoiado por Lula. Mas apenas metade desse contingente apontaDilma como sua candidata preferida, e um quarto - ou 12% do eleitoradototal - cita Serra, ignorando o fato de que ele será o principal nomeda oposição na disputa.

São quase 16 milhões de eleitores que, até a eleição, terão de seposicionar de maneira coerente: ou abandonarão o barco governista ouvotarão na candidata efetivamente apoiada pelo presidente, conforme suaintenção declarada.

Oposicionistas. No outro extremo, os eleitores que querem umcandidato de oposição abrangem 10% do total. Nesse grupo, o nível dedesinformação é bem menor: apenas 3% - cerca de 400 mil pessoas -afirmam votar em Dilma e sete em cada dez apontam Serra como seucandidato preferido.

No geral, a pesquisa mostrou o tucano na liderança, com 35% dasintenções de voto, e Dilma em segundo, com 30%. Os cruzamentos de dadosmostram que a petista é, neste momento, a mais prejudicada peladesinformação dos eleitores, e a que mais tem a ganhar à medida que suaassociação com Lula ficar clara para a totalidade da população, afirmouMárcia Cavallari.

"A eleição não está na ordem do dia para grande parte dosbrasileiros", disse a diretora do Ibope. "Isso tende a mudar após aCopa do Mundo e, principalmente, com o início do horário eleitoralgratuito." Em pesquisa feita pelo instituto em fevereiro, 47% disseramacompanhar as eleições com "pouco interesse" ou "nenhum interesse".

A maior evidência do nível de desinformação é a pesquisa espontânea,na qual os entrevistados manifestam sua preferência antes de consultaro cartão que traz a lista de candidatos. No início de março, apenas umterço do eleitorado foi capaz de citar um presidenciável que, de fato,está no páreo em 2010. Nada menos que 42% não souberam responder àpergunta sobre seu candidato preferido. E 20% optaram por Lula, que nãopode concorrer a um terceiro mandato.

Continuísmo. Bem informados ou não sobre a sucessão, os eleitoresnão vacilam ao manifestar o que esperam do futuro. Na pesquisa defevereiro, o Ibope perguntou aos entrevistados se o próximo presidentedeve promover muitas ou poucas mudanças no governo. A manifestação por"total continuidade" em relação ao governo atual ficou em primeirolugar, com 34% das respostas. Outros 29% pediram "poucas mudanças econtinuidade para muita coisa". Os que optaram por "muitas mudanças" ou"mudança total no governo" chegaram a 35% dos entrevistados.

Entre os nordestinos, 77% se manifestaram por "total" ou "muita"continuidade. O Nordeste, onde o governo Lula tem seus maiores índicesde aprovação, é a única região em que Dilma lidera a corridapresidencial de forma isolada.

A última pesquisa Ibope ouviu 2002 eleitores entre os dias 6 e 10 demarço de 2010. O levantamento, encomendado pela Confederação Nacionalda Indústria (CNI), foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob oprotocolo 5429/2010.