Título: Cubanas se unem e perdem o medo
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/03/2010, Internacional, p. A18
Esposas, mães e irmãs de presos políticos são hostilizadas nas ruas por denunciar os porões do regime
Ajovem Ana Belkis Ferrer ainda se lembra do julgamento dos seus irmãos,João Daniel Ferrer e Luis Enrique Ferrer, presos em 2003 por serem oscoordenadores em sua província, Las Tunas, do Projeto Varella, quecoletava assinaturas para pedir abertura política na ilha. O processode ambos, sumário, durou minutos e eles acabaram condenados a 20 e 25anos de prisão.
"Esses julgamentos sempre foram um teatro. Quando há advogados, elesnão querem ou não têm ânimo para abrir a boca. As sessões duram minutosporque a sentença já está pronta e às vezes são fechadas ou marcadas naúltima hora para que ninguém consiga ir", disse ao Estado Ana Belkis,no sobrado que serve de quartel-general para o movimento Damas deBranco, que reúne mães, mulheres e irmãs de presos políticos.
Foi desse pequeno sobrado - casa de Laura Pollán, mulher dodissidente Héctor Maseda Gutiérrez -, em Havana, que as integrantes domovimento saíram nos últimos seis dias para pedir a libertação de seusparentes presos, numa série de protestos que deve terminar hoje. Elesmarcam os sete anos da chamada Primavera Negra, a onda repressiva naqual o governo cubano prendeu e condenou, em março de 2003, 75jornalistas, ativistas e membros de organizações de defesa dos direitoshumanos - entre eles João Daniel e Luis Ferrer. Todas as que participamda marcha, vestidas de branco e com flores na mão, têm históriasparecidas.
Maridos, filhos e irmãos foram levados a julgamentos sumários pordiscordar do governo e condenados a uma média de 19 anos de prisão,segundo a organização Human Rights Watch.
Fotos dos presos políticos cubanos e um altar improvisado emhomenagem a Orlando Zapata Tamayo - que morreu após 85 dias de greve defome no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegoua Cuba para uma visita, em 23 de fevereiro - recebem os poucos que seatrevem a entrar no sobrado de Laura.
Vigilância. "Muitas pessoas têm medo de se solidarizar conosco.Amigos não nos cumprimentam mais e evitam nos visitar por causa davigilância constante que há em nossas casas", diz Melva Santana, mulherde Alfredo Domínguez Batista. "Esse é um Estado policial. E apesar daesperança de que o novo governo (de Raúl Castro) pudesse ser maisbrando, o que temos visto na realidade é um aumento da vigilância e darepressão", completa Ana Belkis, mostrando as marcas no braço,provocadas pelas agressões das forças de segurança durante amanifestação de quinta-feira.
Os protestos das Damas de Branco duraram toda a última semana, masconforme a imprensa internacional começou a lhe dar atenção, a políciatornou-se menos violenta. Todos os dias, cerca de 40 ou 50 mulherescombinavam de se encontrar em uma igreja diferente e assistiam à missaem homenagem a seus maridos com uma multidão de simpatizantes. Quandosaíam, porém, um grupo muito maior de pessoas as esperava parainsultá-las. Elas eram cercadas e acompanhadas até a casa de Laura aosgritos de "Fidel, Fidel" . Parte do grupo, acusam as militantes,pertence às chamadas Brigadas de Resposta Rápida, grupos civis quepodem agir com violência contra detratores sem que o governo sejaresponsabilizado por isso.
As Damas de Branco vêm das mais variadas partes de Cuba. A maisvelha tem por volta de 75 anos. A mais jovem é Maria Liberdade, de 6anos. "Sou Maria por causa da Virgem e Liberdade pelos presospolíticos", explica a menina, que nasceu quando seu pai, Luis Enrique,estava na prisão. Em comum todas têm a história de sofrimento, medo ede luta para fazer com que a sua história atravesse as fronteiras deCuba. "Lula, por exemplo, não colaborou muito tornando-se um cúmplicedo governo ao fazer aquelas declarações em apoio à Justiça cubana. Elogo ele que já foi um preso político."
Os relatos feitos pelos presos políticos às suas famílias sãofortes. As prisões são pequenas, lotadas e em condições insalubres.
Segundo a HRW, por exemplo, a incidência de tuberculose é 30 vezes maior nas prisões cubanas que fora delas.
Mas quem for considerado um rebelde pode ir para a temida cela doscastigos. "Trata-se de uma cela mínima. Eles não deixam o preso dormire o submetem a barulhos constantes - se não é tortura não sei o que é",afirma Ana Belkis. "Não temos muito para quem apelar, tudo que podemosfazer é contar a nossa história."