Título: O grito silencioso dos presos de consciência
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/03/2010, Internacional, p. A18
Osprotestos das Damas de Branco e as greves de fome de dissidentescubanos são uma tentativa desesperada desses grupos de chamar a atençãoda comunidade internacional sobre a falta de direitos políticos ecivis, e o desrespeito a princípios fundamentais dos direitos humanosna ilha. Cuba mantém hoje 54 "prisioneiros de consciência" segundo aorganização Anistia Internacional, prática condenada pela maior partedos países da região - ao menos em teoria. Dentro da ilha, há muitosque veem esses movimentos dissidentes com alguma simpatia e gostariamde mais abertura no campo político e econômico, mas poucos estãodispostos a pagar o preço necessário no caminho para conseguir essasmudanças.
O regime de Fidel e Raúl Castro está há cinco décadas no poderporque conseguiu montar uma estrutura orwelliana de controle evigilância. Direitos e liberdades individuais são suprimidos em nome dobem coletivo. O Estado é dono de todas as empresas e provê todos osserviços básicos. Não há Judiciário nem Legislativo independentes ecidadãos cubanos precisam de autorização para tudo - desde comprar umcarro até sair do país. Ser considerado um inimigo do Estado é serrelegado a um limbo, conformar-se com a estigmatização e acostumar-seao medo da punição. Ser um bom revolucionário e insultar as Damas deBranco quando seu cortejo passa nas ruas de Havana é comprar um poucode tranquilidade.
Após o afastamento de Fidel, em julho de 2006, começaram a surgiresperanças de mudança, ao menos no campo econômico. Raúl chegou afomentar a "crítica construtiva" por parte dos cidadãos. E tambémrecebeu alguns acenos de fora de Cuba - da Europa, da América Latina eaté dos EUA. Mas temos outro Castro e a mesma Cuba. Há um ano, ficouevidente que nenhuma renovação seria tolerada com o afastamento doentão chanceler Felipe Pérez Roque e do vice-presidente Carlos Lage,gravados clandestinamente criticando os irmãos Castro.
Até os jovens cubanos parecem vencidos pelo cansaço. Há, é verdade,o surgimento de uma geração de blogueiros. Mas como só 13% da populaçãotem algum acesso à internet (o que pode significar ver os e-mails pormeia hora um dia da semana), o grupo faz mais barulho fora da ilha. Aosdissidentes e presos políticos, só resta apelar à comunidadeinternacional, cuja pressão no passado já dissuadiu os Castros de levaropositores para "el paredón". Por isso, ficaram tão decepcionadosquando o Brasil colocou entraves ao recebimento de uma carta pedindoajuda na mediação com Havana. Lula ainda arrematou: "Imagine se todosos bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pediremliberdade."