Título: Sinto que fui enterrado vivo
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/03/2010, Internacional, p. A18
Ojornalista Pablo Pacheco, de 40 anos, foi detido na ofensiva de 2003 deCuba contra dissidentes e ativistas dos direitos humanos e recentementetem sido autorizado a fazer um telefonema de 20 minutos a cada doisdias da prisão para parentes e amigos. É um privilegiado. Alguns presossó podem ligar uma vez por semana.
Na sexta-feira, ele concordou em usar esse tempo para contar sua história ao Estado.
Por que você foi preso?
Por escrever o que eu penso.Fui enquadrado na Lei 88, a "lei da mordaça", que condena quem atentacontra a "segurança nacional". Sou jornalista. Como em Cuba só hájornais do governo, escrevia para sites estrangeiros como o Cubanet (deexilados). Para você ter uma ideia, as provas apresentadas contra mimforam 523 artigos e reportagens, recibos da (empresa de transferênciade valores) Western Union - pagamentos que recebi por esses artigos -,equipamentos de trabalho como câmera fotográfica e gravador, livros etextos, entre eles a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Eutinha a Constituição dos EUA, imagine só. Eu também tinha aConstituição da Espanha, mas o problema foi a dos EUA.
Quais as condições da prisão em que você está?
Sintoque fui enterrado vivo. Em uma cela de uns 30 metros quadrados há 27pessoas. O ambiente é sujo, as doenças se alastram e a comida éintragável. Além disso, a violência é constante por parte doscarcereiros. Estou nessa prisão há pouco mais de um ano - fuitransferido. É uma prisão que também tem pessoas com um históricopsiquiátrico complicado. No tempo que estou aqui já ocorreram quatrosuicídios.
Você tem problemas de saúde por causa dessas condições?Sim. Tenhodores de cabeça constantes, gastrite, hipertensão e problemas nasarticulações.
Como é a relação com os presos comuns?
Cada presopolítico tem a sua história, mas eu pelo menos sinto que eles têm muitorespeito por mim. Sentem que eu posso chamar atenção para um problemaque também é deles - as condições das cadeias cubanas.
Tem esperança de sair?
Sim, mas acho isso difícilenquanto a comunidade internacional não tomar consciência do que estáocorrendo em Cuba. Há um ano houve negociações para uma visita de umacomissão especial da ONU sobre tortura. Ficamos esperançosos, mas ainiciativa não foi adiante. Nada vai avançar enquanto houver políticosque pensem apenas com mentalidade de empresário e sem humanidade, comoo seu presidente, (Luiz Inácio) Lula (da Silva). E eu nunca pensei queiria dizer isso, porque Lula sempre foi um líder que admirei. Achavaque ele era grande. Foi uma imensa decepção ouvi-lo comparar todos nós,presos políticos, com criminosos. O mundo precisa entender que o que háneste país é uma ditadura. E as ditaduras de direita e de esquerda sãoa mesma coisa. No extremo, elas se encontram.
Sua situação pode piorar por falar com a imprensa?
Todostêm muito medo em Cuba. Aqui, o medo é ainda maior do que a dor. É oque nos causa mais sofrimento. Mas essa é uma luta que vale a pena. Nãovamos mais nos calar quando o momento exigir que gritemos. Quero umpaís no qual todos os cubanos possamos sentar para conversar, liberais,socialistas, todos enfim. Que possamos dialogar, acabar com o medo e oódio.