Título: Ultradireita alerta países para que desistam da Copa
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2010, Internacional, p. A8

Assassinato de líder acirra debate sobre canção antiapartheid que incita à morte de fazendeiros brancos

O discurso de seguidores do Movimento de Resistência (AWB) Africânder após o assassinato de seu líder, Eugene Terreblanche, acendeu o alerta sobre a segurança na África do Sul durante a Copa. A ameaça mais explícita partiu de um dirigente do alto escalão do grupo de ultradireita, Andre Visagie, que recomendou diretamente que aos países estrangeiros que não participem da competição, em razão do que ele considera falta de segurança. O esporte nacional da África do Sul é o rúgbi, no qual ainda predominam os jogadores brancos. O futebol é praticado principalmente pelos negros - o zagueiro Matthew Booth é o único titular branco da África do Sul.

De acordo com o jornal Mail & Guardian, de Johannesburgo, Visagie pediu aos seguidores da AWB que esperem até que a convenção do partido defina "como será vingada a morte de Terreblanche". Ontem, amigos e partidários que compareceram ao velório tinham pistolas na cintura e ordenaram que os jornalistas deixassem o local.

O crime foi atribuído pelo partido de oposição Aliança Democrática ao aumento dos conflitos raciais em áreas como a de Ventersdorp. "Isso aconteceu em uma província onde a tensão racial nas comunidades rurais é alimentada por expressões racistas irresponsáveis de membros do Congresso Nacional Africano (CNA, partido governista), avaliou a deputada Juanita Terblanche, líder da AD. Ela se referia a uma canção que inclui o refrão "kill the Boer, kill the farmer" (mate o Boer, mate o fazendeiro), entoada com frequência pelos movimentos de resistência durante o apartheid. Recentemente um dos membros mais importantes do CNA, Julius Malema, incentivou estudantes a cantarem a música em público, o que levou a questão à Justiça. Um tribunal considerou a canção inconstitucional, por incitar ao conflito entre brancos e negros. O CNA, que governa o país desde o fim do regime do apartheid, em 1994, reagiu à decisão e insistiu que a letra faz parte da herança cultural do movimento antiapartheid e não deve ser interpretada literalmente. A letra também qualifica os fazendeiros brancos de "um bando de ladrões". "Não nos permitem que cantemos músicas de liberação na África do Sul, mas não vamos parar. Estamos preparados para ir à cadeia. Essa é uma Corte comandada por homens brancos, mas não vamos obedecer a isso", disse Malema. Ontem, em visita ao Zimbábue, ele afirmou que não tem responsabilidade sobre o assassinato. "Não vou responder a estas acusações", disse por telefone.

Entre as sedes do próximo Mundial, Johannesburgo é considera a mais problemática no que se refere à segurança, em razão dos bolsões de miséria formados quase totalmente pela população negra. O Brasil disputará dois jogos da primeira fase na maior cidade do país (3,2 milhões de habitantes). / AP E AFP

PARA ENTENDER O Movimento de Resistência Africânder (AWB, na sigla em africâner) foi uma organização semissecreta por alguns anos. Ao ser oficializada, em 1979, adotou uma insígnia parecida com a nazista e passou a se opor às concessões feitas pelo governo de minoria branca à maioria negra. Seu criador, Eugene Terreblanche costumava chegar às reuniões do AWB a cavalo e com guarda-costas mascarados vestidos de preto ou cáqui. Em 1983, 15 dos integrantes do grupo foram presos por conspirar para derrubar o governo e assassinar líderes negros. Terreblanche foi condenado a seis anos de prisão em 1997 por tentar matar um segurança negro - que após ser espancado, ficou paralítico e com graves danos cerebrais. Mas só foi preso em 2001. Desde 2008, ele vinha organizando uma série de passeatas do AWB, com o objetivo de estabelecer um território autônomo para os brancos.

Divisão

ANDRÉ VISAGIE SECRETÁRIO-GERAL DA AWB

"Decidiremos ações para vingar a sua morte. Foi uma declaração de guerra dos negros contra os brancos"

JACOB ZUMA PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL

"O assassinato precisa ser condenado, independentemente de como quem o matou acha que isso pode ser justificado. Não se permita que provocadores se aproveitem da situação para alimentar o ódio racial"