Título: Lula volta a cobrar mais investimentos em siderurgia
Autor: Tereza, Irany ; Rodrigues, Alexandre
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2010, Negocios, p. B18

Cobrança foi feita em reunião no BNDES, mas banco tem pouca capacidade de convencer o setor a investir em novos projetos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu na defesa do aumento da produção nacional de aço na reunião que teve com toda a diretoria do BNDES no Rio, na terça-feira. Ao recomendar que o banco concentre esforços para elevar os investimentos em siderurgia, o presidente, mais uma vez, se disse inconformado com o fato de o Brasil, maior produtor mundial de minério de ferro, fabricar "somente 35 milhões de toneladas de aço".

Aos executivos do banco, Lula repetiu que gostaria de ver o País transformado em exportador de placas de aço, e não de matéria-prima. Mas, na prática, o banco não tem como "convencer" o setor a investir em novos projetos. Também não há, segundo fontes do BNDES, estudos para um programa com taxas específicas para o setor. Acionista da Vale, CSN e Usiminas, o banco pode, porém, participar da estratégia dessas empresas.

A retomada da demanda externa por aço e as vantagens competitivas do setor no Brasil estão por trás da insistência do presidente Lula. O BNDES compartilha do diagnóstico de que há uma oportunidade para o País no mercado internacional de semiacabados. A intenção não é estimular projetos voltados para o mercado interno, cuja demanda por aço é de apenas um terço da capacidade atual da indústria. O projeto é aumentar a produção brasileira de placas para o exterior, que não sofrem as taxações do aço acabado.

A recuperação mais lenta da demanda em relação à Ásia está levando ao fechamento de várias plantas de semiacabados na Europa e nos EUA. O aumento do preço do minério em mais de 100% por gigantes como a Vale deve agravar ainda mais a dificuldade de compatibilizar custos e vendas nesses países, e abre uma oportunidade ao Brasil.

Modelo. O que o governo quer é multiplicar no País o modelo da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), que começa a operar no Rio em julho. Parceria entre a Vale e o grupo alemão ThyssenKrupp, a CSA terá capacidade anual de produção de 5 milhões de toneladas de placas. O empreendimento alia o acesso ao minério de boa qualidade da Vale às vantagens logísticas da localização às margens da Baía de Sepetiba, que permite embarque imediato da produção em terminal privativo para laminação na unidade americana da Thyssen.

Como um projeto como este leva, em média, cinco anos para sair do papel, o governo quer agilizar os investimentos e pressiona a Vale a encontrar outros parceiros estratégicos para reproduzir o modelo. O BNDES acena com financiamentos e pode oferecer condições mais atraentes do que o da CSA, por exemplo. O banco financiou R$ 1,5 bilhão dos R$ 12 bilhões do projeto.

Depois de receber pesadas críticas do presidente Lula ao longo de 2009, a Vale confirmou em seu último plano estratégico a intenção de levar adiante quatro projetos siderúrgicos. Além da usina no Rio, as outras três serão localizadas no Pará, Espírito Santo e Ceará. As quatro irão somar US$ 343 milhões em investimentos no ano que vem. O empresário Eike Batista também anunciou associação com a chinesa Wuhan Iron & Steel (Wisco) para instalar uma siderúrgica no Porto do Açu, no Estado do Rio.

A entrada em operação do primeiro alto-forno da CSA este ano deve fazer o Brasil fechar o ano com capacidade de produção de placas de quase 49 milhões de toneladas anuais. Só com os projetos anunciados, a capacidade poderá alcançar 70 milhões de toneladas em 2016, segundo estimativas do BNDES.

Orçamento. A vitória do governo na queda-de-braço com a Vale se evidencia com a inclusão no orçamento da usina no Pará, que já vai receber US$ 192 milhões este ano. A construção de uma siderúrgica no Estado governado pela petista Ana Júlia Carepa era uma das obras mais cobradas pelo governo. A Aços Laminados do Pará (Alpa), prevista para entrar em operação em 2013, recebeu do governo local, há uma semana, licença ambiental prévia.

Com investimento estimado em US$ 2,76 bilhões, a Alpa segue o modelo de usinas com capacidade para 5 milhões de toneladas de placas com destino à exportação. Mas, em seu plano estratégico, a Vale destaca que o desenvolvimento do projeto depende de "diversos investimentos públicos em infraestrutura".

Assim como no Pará, a Vale também decidiu tocar sozinha o projeto de construir uma usina no Espírito Santo. Mas, a mineradora não nega a intenção de buscar um parceiro para o projeto.

Para lembrar

Vale anunciou retorno ao setor no ano passado

As cobranças do presidente Lula por investimentos da Vale em siderurgia se estenderam por praticamente todo o ano de 2009. No ano anterior, na fase mais aguda da crise econômica mundial, a mineradora anunciou, em dezembro, a demissão de 1,3 mil funcionários. O presidente censurou publicamente a empresa. Nos meses seguintes, passou a, também publicamente, cobrar investimentos da Vale, especialmente no Pará, onde fica Carajás, o maior complexo de minas da empresa. Bombardeada pelo governo, a Vale lançou uma grande campanha publicitária destacando investimentos e associando a marca da empresa ao Brasil. Rumores de afastamento do presidente da empresa, Roger Agnelli, ganharam o mercado. No fim do ano, a Vale anunciou o retorno à siderurgia.