Título: Brics buscam união política no Brasil
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/04/2010, Economia, p. B11
- O Estado de S.Paulo
Os líderes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) tentarão na sexta-feira consolidar posições comuns para enfrentar a tendência das grandes economias de relaxar as reformas no sistema bancário consideradas essenciais para evitar nova crise financeira global.
A escolha desse tópico, mais pertinente às discussões do G-20 (grupo das economias desenvolvidas e emergentes), não foi aleatória. Nascido de um acrônimo, o Bric não tem outra agenda de consenso no momento.
"O Bric não é um agrupamento tradicional. Não foi auto constituído, mas inventado. A questão é que o Bric não terá agenda comum a curto prazo", afirmou o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
"A esfera de cooperação financeira no Bric é interessante. Mas pensar que, a partir daí, vai surgir uma nova ordem econômica mundial é embaralhar as cartas", resumiu o embaixador.
Novas bolhas. O principal recado dos líderes do Bric, que serão ciceroneados em Brasília pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, será em favor de uma forte regulação e fiscalização sobre as instituições financeiras e suas movimentações. Trata-se de um dos tópicos da cúpula do G-20, prevista para 26 e 27 de junho em Huntsville (Canadá), que está sujeito ao risco de ser amornado por pressões individuais e pelo arrefecimento da crise.
Como alerta Botafogo Gonçalves, o interesse de Brasil, Rússia, Índia e China em evitar novos "sobressaltos e bolhas" se deve também ao fato de nenhum deles prescindir do crescimento do mundo desenvolvido para impulsionar suas próprias economias.
Assim como no primeiro encontro dos líderes do Bric, em junho do ano passado em Ecaterimburgo (Rússia), Brasília também demonstra interesse em construir uma espécie de pacto que reforce o poder desse grupo para as decisões econômicas e políticas internacionais mais delicadas, que envolverão reformas do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em especial, nas questões que ampliem o poder de voto das economias emergentes, como a brasileira.
Seminário. As ideias que circularam nos últimos dois anos para alavancar o comércio e os investimentos recíprocos e uma posição de contraponto do Bric no cenário mundial, entretanto, saíram da pauta oficial do encontro de Brasília. O início de uma negociação sobre a adoção de uma nova moeda - ou cesta - de referência para as reservas internacionais dos quatro países já havia sido descartada em Ecaterimburgo. A criação de um mecanismo de swap de moedas entre os quatro sócios foi esquecida, e a aplicação do modelo de comércio em moedas locais tornou-se objeto apenas de um seminário técnico.
O governo brasileiro apostou na abertura de novas frentes de discussões como meio de identificar possíveis agendas. Mas, para o futuro. Encontros de empresários e de representantes de bancos de desenvolvimento ocorrerão no Rio de Janeiro. Autoridades de bancos comerciais dos quatro países se reunirão em São Paulo. Haverá ainda encontros entre instituições acadêmicas, cooperativas e autoridades das áreas de segurança.