Título: Doutrina Clegg muda lógica eleitoral britânica
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/05/2010, internacional, p. A14
Partido Liberal Democrata perde, mas pode conquistar sua principal bandeira: a reforma eleitoral
Sang Tan/AP'Superpoderes' caíram na mão de Clegg com a divisão do Parlamento britânico em três forças LONDRES- Depois de protagonizar a "cleggmania" na campanha eleitoral, o candidato do Partido Liberal-Democrata, Nick Clegg, foi responsável nesta sexta-feira, 7, por uma nova surpresa no tabuleiro político da Grã-Bretanha: a "Doutrina Clegg".
Veja também:
Brown cede preferência para formar governo a conservadores
Análise: Rainha manterá distância diante da incerteza na Grã-Bretanha
Entenda as eleições no Reino Unido
Ao anunciar sua disposição de priorizar o resultado das urnas e discutir uma coalizão com David Cameron, o centrista na prática tirou o direito constitucional de Gordon Brown, atual primeiro-ministro, de tentar formar primeiro uma maioria para seguir governando.
A estratégia o colocou no centro do processo de decisão sobre quem será o novo primeiro-ministro, mesmo que seu partido tenha sido um dos derrotados no pleito. Ao obter apenas 22% dos votos - pesquisas eleitorais indicavam cerca de 28% -, os liberais-democratas elegeram apenas 57 deputados, reduzindo sua bancada no legislativo em cinco assentos.
Mesmo assim, os "superpoderes" caíram nas mãos de Clegg com a divisão do Parlamento em três forças. Sem maioria absoluta, conservadores e trabalhistas passaram a precisar de coalizões para alcançar o piso de 326 deputados, que lhes permitiria dominar o Palácio de Westminster, uma situação inédita desde 1974.
Como terceira força, os liberais-democratas passaram a ser assediados, tornando-se maior alvo de Cameron e única esperança de Brown. A posição de força ficou clara já no final da manhã, quando o centrista anunciou sua política: ignorar a Constituição, que daria prioridade a Brown, e abrir negociações com Cameron.
A estratégia foi definida pelo jornalista Andrew Sparrow, do jornal The Guardian, como "Doutrina Clegg". Ela obriga o Reino Unido a abandonar sua tradição, adotando o padrão de comportamento de outros países parlamentaristas da Europa Continental, como a Alemanha, em que governos de coalizão são comuns.
Além de determinar quem dentre Cameron e Brown teria a primeira chance de tornar-se premiê, o liberal-democrata também pode ter na manga o poder de obrigar o Partido Trabalhista a mudar de liderança.
Nesta sexta, o atual secretário de Relações Exteriores, o trabalhista David Milliband, teve de vir a público desmentir estar em discussões com os rivais de centro.
"Acordei e ouvi alguém na BBC falando que eu estava em conversações com Vince Cable", afirmou o chanceler em seu twitter, referindo-se a um dos líderes liberal-democratas. "Nonsense!"
Seja quem for o "eleito" de Clegg, está claro que o novo premiê terá de aceitar suas condições. Ou seja, terá incluir a reforma do sistema eleitoral. Essa reforma significa o futuro dos Lib-Dems, e, se acontecer, pode tornar o partido uma alternativa política real de poder nas eleições futuras.
"Eu repito mais uma vez minha certeza de, o que quer que aconteça nas próximas horas, dias e semanas, eu vou continuar a lutar não apenas por uma sociedade britânica maior e mais justa, não apenas por mais responsabilidade na política econômica, mas também por uma reforma real e extensa, que nós precisamos para consertar nosso sistema político.