Título: Em 2º, Brown cede a conservadores preferência para formar governo
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/05/2010, internacional, p. A14

Cameron tenta cortejar Clegg para formar coalizão; indefinição pode manter trabalhistas no poder

Alastair Grant/APCameron não tem maioria absoluta para se tornar primeiro-ministro do Reino Unido automaticamenteLONDRES- O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, abriu mão nesta sexta-feira, 7, de seu direito constitucional de negociar primeiro a convocação de um novo gabinete, autorizando o líder do Partido Conservador, David Cameron, a tentar formar um governo de coalizão.

As discussões foram iniciadas na sexta com o chefe do Partido Liberal-Democrata, Nick Clegg, e podem se encerrar no sábado, quando parlamentares do partido centrista se reunirão para debater a proposta.

O diálogo entre conservadores e liberal-democratas visa a tirar o país de seu maior impasse político desde 1974. A confusão foi causada pela divisão do Parlamento criada pelas eleições realizadas na quinta-feira.

De acordo com o resultado final do pleito, anunciado às 17h de sexta, o Partido Conservador obteve a maior bancada, com 307 deputados, mas não a maioria absoluta do Parlamento - 326 votos -, que permitiria a Cameron tornar-se automaticamente o novo primeiro-ministro.

A situação jogou o país em um verdadeiro torneio de xadrez entre os três partidos. O primeiro movimento decisivo foi feito por Nick Clegg. Falando em seu quartel general, em Cowley Street, em Londres, o liberal-democrata anunciou que aceitaria abrir negociações com Cameron - respeitando a ordem dos candidatos estabelecida pelas urnas, mas quebrando uma tradição britânica.

"Eu acredito que agora seja o momento de o Partido Conservador provar que é capaz de tentar governar dentro do interesse nacional", justificou. Ele condicionou um acordo, porém, à reforma do sistema eleitoral, que prejudica o desempenho de seu partido.

Sob o impacto dessa decisão, o trabalhista convocou a imprensa em 10, Downing Street - a sede do poder britânico - para anunciar sua jogada política: abrir mão da prioridade de tentar negociar uma coalizão, deixando o caminho livre para o diálogo entre Cameron e Clegg.

Em discurso de estadista, Brown reiterou: "Eu compreendo e respeito a posição de Clegg de desejar fazer contato com o líder do Partido Conservador". A seguir, contudo, deixou claro que continua na disputa.

"Se as discussões entre Cameron e Clegg resultarem em nada, eu estarei preparado para discutir com Clegg as áreas nas quais pode haver possibilidade de acordo entre nossos dois partidos."

O último movimento coube, então, ao líder conservador. Às 14h30min, Cameron anunciou uma proposta objetiva aos liberal-democratas. O candidato reforçou a intenção de priorizar a redução rápida dos impostos e os investimentos em uma economia sustentável e acenou com a criação de um comitê interpartidário para discussão sobre a reforma do sistema político.

"Acredito que temos uma base forte para um governo forte", afirmou, sem porém usar a expressão "coalizão" para descrever a aliança, que pode ser apenas ocasional - sempre em que houver temas cruciais, como a votação de lei de orçamento, por exemplo.

A oferta foi, imediatamente, objeto de discussões na Grã-Bretanha. Em uma pista sobre a posição dos liberais-democratas, Menzies Campbell, ex-líder do partido, afirmou que os termos de Cameron eram insuficientes, em especial no que dizia respeito ao sistema eleitoral.

"Já estivemos em torno disso antes", analisou. Além do sistema eleitoral, temas como a integração com a União Europeia - Cameron é "eurocético", enquanto seu possível parceiro é "eurófilo" -, o uso da energia nuclear e a política de imigração distanciam os dois partidos. Contribui para a rixa o fato de que parte dos correligionários de Clegg são ex-militantes trabalhistas.

Apesar da cautela, Cameron e Clegg encontraram-se no início da noite para discutir os termos de um acordo. A resposta sobre se Cameron será o primeiro-ministro pode ser conhecida no sábado, quando os congressistas liberais-democratas se reunião no Palácio de Westminster para debater a oferta.

Três perdedores

Independente do resultado das negociações, para o cientista político Tony Travers, da London School of Economics (LSE), a eleição já tem um balanço: "Ela deixa três perdedores", entende.

Clegg, diz, por ter feito bancada inferior ao planejado; Cameron e Brown por não alcançarem a maioria.

Patrick Dunleavy, acadêmico da mesma LSE, vê o liberal em situação privilegiada em relação a seus adversários.

"Clegg ainda pode arrebatar uma mudança importante para o status do Partido Liberal-Democrata", antevê. "Ele precisa agora mostrar que seu partido é parte séria de um governo, capaz de assumir a responsabilidade em momentos difíceis".

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