Título: Para economistas, decisão do corte veio tarde demais
Autor: Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/05/2010, Economia, p. B3

Por causa da demora, a avaliação é que medida não será suficiente para desacelerar a atividade econômica

A decisão do governo de cortar R$ 10 bilhões neste ano veio tarde demais e, por causa da demora, não terá impacto significativo na desaceleração da atividade econômica. Nem será suficiente para alterar as decisões futuras do Banco Central de elevar os juros nos próximos meses para conter a eventual disparada da inflação neste ano. Essa é a avaliação de economistas ouvidos ontem pelo Estado.

O contingenciamento é o segundo anunciado pela equipe econômica neste ano. Em março, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, anunciou um corte de R$ 21,8 bilhões. Para o economista da consultoria Tendências, Felipe Salto, se o primeiro contingenciamento tivesse sido maior - na época era cogitado em cerca de R$ 40 bilhões - o efeito sobre a demanda agregada seria mais significativo.

"O governo perdeu o timing. O ajuste fiscal é uma medida preventiva, que precisa ser antecipada. Até porque uma das pressões da demanda agregada é justamente o elevado gasto público", afirmou Salto. Segundo ele, redução de despesas com a máquina exige reformas para reverter a trajetória de alta dos gastos.

Efeitos. Com o corte de R$ 10 bilhões no Orçamento, "na melhor das hipóteses, o superávit primário deve atingir 2,4% do PIB neste ano", comentou o especialista em contas públicas Raul Velloso. Segundo ele, a redução de despesas oficiais não deve ser maior por causa de alguns fatores, sobretudo as despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e dispêndios na área social.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, mostra-se cético sobre a capacidade do governo de reduzir as despesas em R$ 10 bilhões neste ano. "Estamos no fim de maio, provavelmente os gastos de junho já estão contratados", Para ele, é difícil imaginar que no segundo semestre, quando ocorrem eleições, os cortes federais passarão a vigorar, sobretudo porque a pré-candidata do Planalto, Dilma Rousseff, enfrenta dificuldades para avançar sua popularidade. "E, mesmo que o corte do Orçamento funcione, já vem atrasado, pois deveria ter sido feito há vários meses para conter o vigor do consumo", ponderou.

Meirelles. "Qualquer ajuda é bem-vinda", declarou ontem, no Rio, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, comentando os cortes programados nas despesas do governo. A entrevista foi concedida algumas horas antes do anúncio do corte dos R$ 10 bilhões no Orçamento, pelo ministro Guido Mantega, em Brasília.

Meirelles foi cauteloso e genérico. Evitou entrar em detalhes sobre as decisões do governo e apenas revelou que a divulgação das medidas estava próxima. "Vamos aguardar o anúncio. Como já mencionei, qualquer ajuda é bem-vinda no processo de estabilização da economia. Vamos aguardar as decisões das autoridades fiscais", limitou-se a dizer. / COLABORARAM RICARDO LEOPOLDO, ALESSANDRA SARAIVA E JACQUELINE FARID