Título: Em Moscou, Lula e Medvedev divergem sobre chances de levar Teerã a acordo
Autor: Monteiro, Tânia
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/05/2010, Internacional, p. A14
O otimismo exibido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre as negociações com o Irã foi contrastado pelo pessimismo prudente do líder russo, Dmitri Medvedev. A ambos se indagou, de 0 a 10, quais as chances que viam de um acordo. "Medvedev deu 3. Mas eu daria 9,99", avaliou Lula.
Apesar de dizer que espera que a missão brasileira a Teerã, que começa hoje, "termine em sucesso", por considerar que esta seja, "talvez a última chance" de se chegar a um acordo em relação a questão nuclear, para evitar a imposição de sanções ao Irã, o presidente russo mostrou-se cético.
"Se não der certo, talvez seja falha minha", justificou Lula, depois de salientar que "se não encontrar um acordo, voltarei para casa feliz porque não fui omisso e tentei fazer o que acreditava que era necessário ser feito e todos vamos ganhar com isso".
O Irã foi a principal pauta do encontro reservado dos dois presidentes no Kremlin, que durou 1 hora e 40 minutos e ocorreu dois dias antes da reunião que está despertando interesse do mundo inteiro. "Vou tentar usar tudo o que aprendi na política para convencer o meu amigo (Mahmoud) Ahmadinejad que aceite o acordo. Vou com a convicção de que vamos encontrar um acordo", disse Lula, acrescentando que "um bom acordo é muito melhor que um processo de divergência e uma briga".
Medvedev previu que a ida do presidente Lula ao Irã "não vai ser uma viagem simples". Segundo ele, o Irã tem de apresentar três sinais nessa negociação: que o seu programa nuclear é pacífico; será controlado pela Agência Internacional de Energia Atômica e aberto ao regime imposto pela agência para garantir o uso pacífico do programa.
Após repetir a retórica americana de que talvez esta seja a "última chance" dada ao Irã, antes de o Conselho de Segurança da ONU definir por alguma sanção, Medvedev afirmou que se os iranianos aceitarem o acordo, não importa onde vai ocorrer a troca de urânio, se na Rússia ou na Turquia. E deu um recado a Ahmadinejad: "Dirijo-me ao Irã pedindo que escute as propostas do presidente do Brasil", ressalvando, no entanto, que não poderia dizer, neste momento, qual será o curso dos acontecimentos. "Mas eu desejo todo êxito ao meu colega (Lula)", concluiu.
Lula, que chamou de "amigo" tanto Ahmadinejad quanto Medvedev, comentou que conheceu ambos em Nova York, durante reunião da ONU. "Conversei com ele e percebi que nenhum ser humano é 100% bom ou 100% ruim. Todos temos ponto de equilíbrio e o presidente Ahmadinejad tem um lado muito interessante", comentou Lula, insistindo que vai tentar "convencer seu amigo" a aceitar a proposta da AIEA.
Lula deixou Moscou, onde permaneceu menos de 24 horas, no fim da tarde de ontem, Ele seguiu para o Catar, e, hoje à noite deve desembarcar em Teerã para, amanhã, reunir-se com o presidente do Irã.