Título: Com Cameron, conservadores voltam ao poder na Grã-Bretanha após 13 anos
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/05/2010, Internacional, p. A10
Posse. Como manda a tradição, rainha Elizabeth recebe Cameron no Palácio Buckingham para confirmá-lo no cargo de premiê
O líder do Partido Conservador, David Cameron, de 43 anos, tornou-se ontem à noite o mais jovem primeiro-ministro da Grã-Bretanha em 200 anos. Sua escolha foi aceita pela rainha Elizabeth II em encontro realizado no Palácio de Buckingham, minutos após a renúncia do então premiê, Gordon Brown.
Veja também:
David Cameron é o novo primeiro-ministro no Reino Unido
Nick Clegg é o novo vice-premiê
Brown renuncia ao cargo de primeiro-ministro
Entenda as eleições no Reino Unido
A primeira vitória dos conservadores em 13 anos, após uma eleição apertada, foi possível graças a um acordo de coalizão com o liberal Nick Clegg. Logo após a posse de Cameron, líderes conservadores anunciaram que Clegg se tornaria vice-primeiro-ministro e outros quatro liberais integrariam o gabinete. Mais tarde, os parlamentares e a direção do Partido Liberal ratificaram o acordo. "Espero que seja o início de uma nova política na qual sempre acreditamos", disse Clegg.
Com o acordo, os liberais voltam ao centro do poder depois de sete décadas de afastamento. A definição de Cameron como novo premiê representa o fim do maior impasse político vivido pelo país desde 1974 - quando o primeiro governo, de minoria, do trabalhista Harold Wilson durou só oito meses. Representa também o fim de um ciclo de poder do Partido Trabalhista, iniciado em 1997 com Tony Blair.
Brown encerrou ontem sua trajetória como premiê, após 3 anos de governo e 30 como personagem central da política britânica. A renúncia tornou-se inevitável após o fim das negociações com Clegg, abertas na véspera. O fracasso do diálogo ocorreu por resistência dos liberais e por pressão dos correligionários trabalhistas, que preferiram retirar-se do poder, reorganizar-se como oposição sob uma nova liderança e preparar-se para uma nova eleição que, para cientistas políticos, pode ocorrer em até 24 meses. Além de anunciar que abandonava o poder e aconselhar a rainha a convidar o líder da oposição a formar o governo, Brown antecipou que estava deixando a direção do Partido Trabalhista, agora a cargo do interino Harriet Harman.
Seguindo o ritual político britânico, Brown deixou Downing Street, 10, a residência do premiê britânico, no mesmo instante, acompanhado da família. No Palácio de Buckingham, onde se encontrou com a rainha, apresentou sua demissão.
Coube a Cameron, então, cumprir o rito da monarquia. Às 20h11 locais, ele entrou no palácio e, 30 minutos depois, deixou o encontro com a mulher, Samantha, já como premiê.
Em seu primeiro pronunciamento, feito antes de ingressar em Downing Street, 10, Cameron oficializou a formação de um governo de coalizão conservador-liberal - uma conjunção ideológica considerada pouco provável há quatro semanas. "Gostaria de dizer que a rainha me pediu para formar um novo governo, e eu aceitei", disse, em um discurso objetivo, sem apelos emocionais. "Tenho a intenção de formar uma coalizão genuína e completa entre conservadores e liberal para prover este país do governo forte e estável que precisamos."
Prioridades. Cameron também anunciou que suas prioridades políticas serão o combate ao déficit público - que, segundo Bruxelas, pode atingir 12% este ano, tornando-se o maior da União Europeia -, os "problemas sociais", não especificados, e a reforma do sistema político, principal bandeira política dos liberais.
Cameron recebeu ontem o telefonema do presidente dos EUA, Barack Obama, que felicitou o novo chefe de governo britânico e o convidou para uma visita a Washington em julho.