Título: Britânicos vão às urnas sem favoritos
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/05/2010, Internacional, p. A16
A Grã-Bretanha decide hoje, numa eleição imprevisível, quem será seu novo chefe de governo. Separados por diferenças ideológicas tênues, os líderes conservador, David Cameron, e trabalhista, Gordon Brown, protagonizam a eleição mais disputada da história recente do país. O que está em jogo é a definição de quem será encarregado de tirar a economia da estagnação, do déficit público e das dívidas causadas pela crise financeira.
A menos de 12 horas da abertura das urnas, às 7 horas de hoje (3 horas de Brasília), eleitores, institutos de pesquisa e cientistas políticos não tinham elementos para indicar quem tem mais chances de assumir o "Downing Street n.º 10", como é chamada a sede do poder britânico.
De acordo com sondagem publicada ontem pelo instituto YouGov, Cameron tem 35% da preferência, Brown vem em segundo, com 30%, seguido de Nick Clegg, do Partido Liberal, com 24%. Já o instituto ComRes apontou o conservador com 37% e o trabalhista com 29%.
Essa vantagem, que varia de 5 a 8 pontos porcentuais - de acordo com a metodologia da pesquisa - faz toda a diferença. Ela apontará não apenas a maior bancada no Parlamento, mas também se Cameron obterá maioria absoluta - o que lhe daria condições de declarar vitória e anunciar a formação de um governo de centro-direita.
Já Brown tenta impedir que seu opositor eleja mais de 325 deputados, condição que lhe permitiria acordar na sexta-feira ainda como premiê (mais informações nesta página).
A indefinição também era potencializada na tarde de ontem pela indecisão do eleitorado. ComRes apurou que cerca de 40% dos eleitores - liberais, na maioria - ainda podem mudar seu voto. Em busca dos indecisos, Cameron, Brown e Clegg intensificaram ontem o contato com eleitores nos distritos em que a disputa está em aberto. Cameron apelou por mudanças, atacando de forma direta a administração atual. "Temos só algumas horas para dar ao nosso país um novo governo e salvá-lo de mais cinco anos de Brown."
Já o atual premiê exortou o eleitorado a esquecer seus erros pessoais e escolher entre duas visões de política. "Sob o governo conservador, você está por sua conta. Sob o trabalhista, nós estamos do seu lado", frisou.
Clegg insistiu em sua condição de alternativa: "Se David ou Gordon assumirem Downing Street, nada - nada mesmo - vai mudar realmente."
Certo mesmo é que, seja quem for o vencedor, a Grã-Bretanha não mudará de forma radical na sexta-feira, dizem cientistas políticos consultados pelo Estado. Apesar da rivalidade histórica, conservadores e trabalhistas aproximaram suas plataformas nas últimas duas décadas. Na campanha atual, a preocupação comum é o rombo nas contas, que, segundo a União Europeia, pode atingir 12% em 2010 - superando o da Grécia.
"As principais divergências dizem respeito ao momento, à forma e à velocidade com que iniciarão o corte de despesas do governo", diz Stephen Fischer, doutor em Ciências Políticas de Oxford. Para Ralf Martin, da London School of Economics (LSE), a diferença limita-se a como Cameron e Brown lidarão com a crise.
"Nos anos 80, os trabalhistas defendiam a maior participação do Estado na economia. E os conservadores, a privatização", explica. "A divisão ideológica nítida não existe mais. Hoje todos defendem o modelo econômico liberal."