Título: Volkswagen vai usar 30% de aço importado
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/06/2010, Negócios, p. B14

Para entidade do setor de aço, porém, alta das compras externas não será significativa

A Volkswagen do Brasil já importa 20% do aço utilizado na produção de veículos, porcentual que subirá para 30% até o fim do ano ? em 2009, essa proporção era de cerca de 10%. A matéria-prima importada vem da Coreia do Sul e da Índia. Segundo o presidente da montadora, Thomas Schmall, além de o preço ser um pouco menor que o produto brasileiro, a importação é uma forma "de não ficar nas mãos de apenas um fornecedor". A questão do aço é um ponto sensível atualmente no mercado automotivo brasileiro. O Estado procurou outras três montadoras, mas nenhuma delas quis falar sobre o assunto. O silêncio estaria ligado às negociações em curso entre siderúrgicas nacionais e fabricantes de veículos.

Na segunda-feira, o presidente da GM no Brasil, Jaime Ardila, queixou-se de altas de até 30% nos preços da matéria-prima no Brasil. O presidente da Fiat, Cledorvino Belini, também já reclamou dos reajustes no aço.

Em momento de alta de preços em todo o mundo ? creditada às sucessivas altas do minério de ferro, principal matéria-prima do aço ?, os fornecedores do produto veem as reclamações das montadoras com relativa tranquilidade, apesar da alta de 156% nas compras externas de aço entre janeiro e abril de 2010. O consenso é que a participação internacional no fornecimento às montadoras locais ainda é muito pequeno e não crescerá de forma significativa.

Para Marco Polo Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil (IABr), caso realmente quisessem, as montadoras já poderiam importar parcela maior do aço que consomem. "Os reajustes de preço são definidos mundialmente, e a alta do minério afeta o mundo todo. O fornecedor local é tradicionalmente o mais adequado para atender às necessidades "just in time" dessas indústrias", diz Lopes. "A reclamação faz parte do jogo."

Alta na cadeia. A decisão da Vale de reajustar os preços do minério de ferro a cada três meses, aliada a um aumento médio de 35% previsto para julho, assustou o setor automobilístico. "Vejo isso com espanto", disse Ardila. "É impossível absorver esses aumentos. Quem vai pagar a conta é o consumidor."

Para Schmall, a indústria terá de buscar "matérias-primas alternativas, como plástico e alumínio" para evitar impactos significativos do aço no preço final dos veículos. Para o executivo, o mercado está mais competitivo e não há espaço para repassar novos aumentos de custos.

Schmall recebeu ontem a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou da abertura do encontro mundial do Comitê de Trabalhadores da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP). Foi a quarta visita dele à fábrica da Anchieta desde que assumiu a Presidência.

Carro elétrico. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, que participou do evento, disse que "o Brasil não vai reinventar a roda", ao criticar a ala do governo que defende o desenvolvimento local de veículos elétricos. Um anúncio de estímulo a essa tecnologia seria feito pelo Ministério da Fazenda, no dia 25, mas foi adiado na última hora.

Na primeira declaração após a decisão, o ministro afirmou que a maioria das matrizes das montadoras já investe no sistema elétrico, principalmente no desenvolvimento de baterias. "Por que não aproveitar da experiência lá de fora?", questionou.

Diante do elevado custo do carro elétrico, o ministro defendeu que a indústria local aguarde até que os países desenvolvidos atinjam escala de produção ? o que vai baratear o preço ? para depois adotar a tecnologia. "No Japão, por exemplo, cada carro elétrico é vendido com US$ 20 mil no porta-luvas", disse ele, referindo-se aos subsídios que o governo oferece ao produto.

Enquanto o carro elétrico não se populariza, Jorge diz que o carro flex "continuará sendo uma boa alternativa para o Brasil". No mundo todo, as projeções de montadoras e analistas são de que os veículos elétricos vão responder por 5% a 10% das vendas daqui a dez anos.

Schmall disse que, por ser global, a companhia está preparada para atender à demanda por carros elétricos. Para ele, em cinco a seis anos o Brasil deverá ter um mercado total 10 a 15 mil veículos elétricos por ano, o que não justificaria a produção local em um primeiro momento. "O carro elétrico é o futuro", afirmou o executivo, "mas ainda é cedo para falar em produção local." Segundo ele, a Volks deverá trazer alguns modelos elétricos para testes no País em até dois anos.