Título: Política externa turca preocupa EUA e Israel
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/06/2010, Internacional, p. A10

Líderes turcos melhoram relações com ex-rivais, como Síria e Irã, e ampliam vínculos [br]com vizinhos, causando o temor de que estejam se afastando do OcidenteAs mulheres usavam véu, os homens faixas verdes do Hamas. Reuniram-se aos milhares numa ensolarada praça de Istambul aos gritos de: "Maldito Israel!" A manifestação de sábado não combinava com a imagem que a Turquia tem no Ocidente, de amiga secular de Israel e dos EUA. Mas nos últimos dias, a ira das pessoas explodiu por causa do ataque sangrento de Israel aos navios de bandeira turca que levavam ajuda humanitária à Faixa de Gaza, atualmente bloqueada por Israel. O incidente ocorreu no momento em que a Turquia está estreitando os laços com os governos muçulmanos da região ? manifestando-se mais abertamente em favor dos palestinos e tentando impedir novas sanções da ONU contra o Irã.

Surgiram temerosas especulações: acaso a Turquia estaria se afastando do Ocidente? O governo turco de orientação islâmica afirma que não. E alguns analistas consideram a pergunta muito simplista. Com uma economia em expansão e líderes determinados, o país, membro da Otan, está se revelando uma potência regional com uma política externa mais independente, afirmam analistas. "Os turcos querem que seu país seja o mais importante do bloco", disse Henri Barkey, da Carnegie Endowment for International Peace em Washington. "Os turcos têm essencialmente um senso muito exagerado de sua importância."

Os líderes turcos chamam sua política externa de "zero problemas com os vizinhos". O país melhorou significativamente as relações com seus outrora rivais, como a Síria, que anteriormente abrigava rebeldes curdos, e o Irã, antes temido por seu potencial de exportação do radicalismo islâmico.

A nova política tem como base, em parte, a ampliação dos vínculos comerciais. A economia turca, antes sob a tutela do Estado, cresceu rapidamente, com a emergência de centros de exportação dinâmicos . O comércio da Turquia com os vizinhos cresceu mais de 20 vezes de 1991 a 2008.

Os ambiciosos líderes turcos procuram usar seu crescente peso regional para desempenhar um papel global maior. A Turquia serviu de intermediária entre Israel e a Síria, antes que a breve guerra de Israel em Gaza, em dezembro de 2008, acabasse com as conversações. Mais recentemente, diplomatas turcos e brasileiros obtiveram um acordo para enviar parte do urânio iraniano ao exterior, onde seria processado, para evitar novas sanções da ONU pedidas por Washington.

Segundo Barcin Yinnac, editora da Hurriyet Daily News and Economic Review, é inevitável que a Turquia tenha um papel internacional maior, considerando sua posição geopolítica e sua nova estatura como um dos 20 principais países industrializados. Mas os governos seculares anteriores, que introduziram a liberalização econômica, costumavam se mostrar mais cautelosos em política externa, disse Yinnac.

"A diferença em relação a este governo é que eles têm uma coloração ideológica", afirmou .

Em termos históricos, Israel e Turquia eram bons aliados, compartilhando ajuda militar e a mesma desconfiança dos países árabes. Mas se a Turquia estreitar os laços com seus vizinhos, já não precisará do apoio de Israel, afirmaram analistas.

Mas a questão é mais profunda do que o mero realinhamento do governo turco em sua região. Seus cidadãos estão mais conectados com o mundo, até mesmo com as causas muçulmanas no exterior. O governo tornou-se mais sensível à opinião pública. E os eleitores sentem que têm mais poder, particularmente os religiosos. Desde que Mustafá Kemal Ataturk fundou a Turquia sobre o que restava do Império Otomano, o país adotou uma política oficial de secularismo. O país "era secular, mas de maneira forçada", disse Barkey. "A maioria da população era muito mais conservadora e religiosa do que as autoridades".