Título: ''Corte de gastos é insuficiente''
Autor: Gonçalves, Glauber
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/06/2010, Economia, p. B4
RIO ENTREVISTA José Roberto Mendonça de Barros, Sócio da MB associados
Sócio da consultoria MB Associados, o economista José Roberto Mendonça de Barros vê o desempenho do primeiro trimestre como um ponto fora da curva, resultado de uma política macroeconômica contaminada pelo ciclo político eleitoral. "É um ciclo político clássico. E o corte de R$ 10 bilhões foi um corte de vento." A seguir, trechos da entrevista.
O PIB confirmou a tese de superaquecimento da economia? Acho que a economia está muito aquecida mesmo. Na MB tínhamos um número otimista, de 8% (sobre o primeiro trimestre de 2009), não os 9%. Nos trimestres subsequentes, talvez a expansão seja menor, mas isso tem profundo efeito estatístico, porque a base de comparação começa a ficar maior, com a recuperação do ano passado. Portanto, o padrão de comparação vai ser maior. Mas, em termos de volume absoluto, temos um crescimento excessivamente acelerado. O maior indicador disso é que as fontes de aquecimento de demanda não se alteraram muito. O mercado de trabalho continua muito aquecido; a renda do trabalho está aumentando muito e isso não vai cair. O crédito vai continuar farto. Não há razão pela qual a gente não continue a ter consumo bastante acelerado.
A eventual elevação de juros é um instrumento necessário para esfriar o consumo?
Não tenho dúvida, infelizmente. Gostaria que não fosse assim. Temos uma disfunção básica na política macroeconômica: a política fiscal está remando em direção ao aumento do gasto e a política monetária é que tenta contrapor isso. Se não tivesse essa expansão tão acelerada do gasto público, não se precisaria conter tanto o consumo. O ideal é que as políticas monetária e fiscal remem na mesma direção. O ponto que se perdeu para ajustar a política macro foi o fim do ano passado. Estava claro que o Brasil já tinha saído bem da crise. Essa superaceleração do início do ano tem forte ligação com ciclo político. É um ciclo político clássico, em ano eleitoral. E os R$ 10 bilhões de redução no orçamento é um corte de vento.
A taxa de investimento brasileira ainda é tímida, embora o investimento esteja crescendo. É um crescimento sustentável?
Foi bonito, mas foi 18%. Está muito aquém dos 20% que temos de cruzar. Voltamos a 2008. É uma taxa bastante limitada. O País não consegue sair, há vários anos, de 18, 19%.Na prática, essa taxa de investimento é o que a gente vê de estradas precárias, portos mal dimensionados, energia cara. Fomos acumulando carências na área de infraestrutura que ninguém tira.
O crescimento é chinês, mas não se pode chamar o Brasil de China?
A China cresce isso sustentavelmente. Nós tivemos um ponto no tempo que não é sustentável. Chamar de "China" o crescimento do consumo da classe C, que vem ocorrendo há vários meses, é uma coisa. Mas o crescimento de 9% é um ponto fora da curva e serve para demonstrar que o nosso crescimento potencial é baixo. Na MB calculamos que o País pode crescer 4% sem gerar inflação. Muito mais do que isso começa a gerar inflação.
A evolução econômica na Europa deve ditar o ritmo brasileiro de crescimento?
No curto prazo, a grande ameaça são os acontecimentos na Europa. Em princípio, as autoridades econômicas europeias poderiam se contrapor a essa situação difícil. O preocupante é que a liderança europeia está se mostrando desunida, hesitante, incapaz de fazer um projeto conjunto e sempre está atrasada em relação aos fatos, vide o programa de suporte de 750 bilhões, levaram quatro meses nisso. É uma ameaça para a recuperação do PIB mundial. Isso preocupa, sim.
A que ritmo o investimento tem de crescer para acompanhar a demanda?
Precisamos aumentar 5 pontos e crescer a 22% do PIB. Não é pouca coisa. E não adianta um trimestre. Estamos longe disso. Quem acredita atingir isso num horizonte até 2012 tem muito otimismo, muita torcida. E tem gente fazendo isso, pondo na conta a expansão no volume de investimento da Petrobrás, que acho acima da capacidade efetiva de a empresa realizar.