Título: Justiça dos EUA nega imunidade a Vaticano
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/06/2010, Vida, p. A18
Decisão da Suprema Corte mantém processo contra Santa Sé, acusada de conspirar com dioceses para encobrir padre que abusava de menores
O Estado de S.Paulo WASHINGTON A Suprema Corte dos Estados Unidos não vai impedir o andamento de um processo que acusa o Vaticano de transferir por duas vezes, em vez de punir, um padre acusado de abusar sexualmente de menores. A mais alta corte do país recusou ontem uma apelação do Vaticano, o que permite que o processo, aberto em 2002 por um residente dos arredores de Seattle cujo nome não foi divulgado, continue.
O requerente afirma que foi molestado várias vezes pelo padre irlandês Andrew Roman no final dos anos 1960. Ele também acusa o Vaticano de conspirar com arquidioceses para transferir Roman da Irlanda para Chicago e dessa cidade para Portland. O padre morreu em 1992.
O advogado do Vaticano usou o argumento da imunidade diplomática para frear a ação, mas cortes federais consideraram o caso como exceção. Os Estados Unidos e o Vaticano têm relações diplomáticas desde 1984.
Outro processo, movido em Kentucky, acusa o Vaticano de ter sido leniente com padres que molestaram menores e busca intimar o papa Bento XVI para depor no tribunal.
Repreensão. Em nota, o Vaticano criticou ontem um dos mais importantes cardeais da Igreja, o austríaco Christoph Schoenborn, por declarações dadas a jornalistas em abril nas quais acusava o antigo Secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano, de ter bloqueado uma investigação sobre outro cardeal austríaco, Hans Hermann Groer, acusado de abusar de seminaristas.
A nota, divulgada após encontro de Schoenborn com Bento XVI, afirma que apenas o papa pode criticar um cardeal publicamente. O cardeal, arcebispo de Viena e considerado como um possível candidato ao papado, tem criticado o silêncio na Igreja em relação aos casos de pedofilia envolvendo o clero.
Schoenborn também sugeriu que o celibato dos padres fosse discutido, assim como o casamento de divorciados. Ele ainda pediu mais compreensão em relação aos homossexuais e afirmou que a estrutura de governo do Vaticano necessita de reformar urgentes.
Grupos de vítimas de abusos por parte de padres afirmaram que o Vaticano deveria elogiar o cardeal por sua honestidade e não humilhá-lo publicamente. "Com suas palavras, Bento professa preocupação pelas vítimas. Por suas ações, mostra preocupação por seu colegas", afirmou David Clohessy, diretor da ONG americana Snap.
O porta-voz de Schoenborn afirmou que o cardeal não daria entrevistas.