Título: Pressão dos EUA por reunião secreta abre crise no gabinete israelense
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/07/2010, Internacional, p. A12

A pedido de Washington, ministros de Israel e Turquia encontraram-se na quarta-feira em Bruxelas, cerca de um mês após tragédia da flotilha de Gaza desatar a pior crise na relação entre os países; reunião irrita chanceler israelense

O Estado de S.Paulo Aliados. Bibi (D) e Peres na festa antecipada do Dia da Indepencência dos EUA na residência do embaixador americano

Os EUA pressionaram Israel e Turquia para que mantivessem um encontro secreto em Bruxelas, na quarta-feira, para a reaproximação da Turquia com Israel. A reunião ? entre o ministro israelense de Indústria e Comércio, Benjamin Ben-Eliezer, e o chanceler turco, Ahmet Davutoglu ?, porém, irritou o chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, complicando suas relações com a coalizão liderada por Binyamin Bibi Netanyahu.

O jornal Jerusalem Post publicou reportagem, citando fontes israelenses, segundo a qual o esforço diplomático foi um fracasso. De acordo com o diário, a Turquia manteve a exigência de que Israel peça desculpas pelo ataque à flotilha de Gaza, em 31 de maio, concorde com uma investigação da ONU, encerre o bloqueio ao território palestino e pague indenização aos parentes das vítimas.

Se confirmada essa versão, o encontro terá significado uma dupla derrota para o governo israelense. Além de não descongelar as relações com a Turquia, a reunião abriu uma crise no gabinete. Irritado por não ter sido informado da viagem de Ben-Eliezer, Lieberman ? líder do partido de extrema direita Yisrael Beiteinu ? divulgou uma nota oficial criticando publicamente a ação diplomática. O grupo de Lieberman detém a terceira bancada no Parlamento e é indispensável para a manutenção do governo. Apesar da contrariedade, no entanto, Liebermam descartou a possibilidade de que seu partido se retire da coalizão.

Por outro lado, o Hurryet, considerado um dos principais jornais da Turquia, apresentou uma versão diferente do encontro de Bruxelas: Israel teria concordado em pedir desculpas e a pagar a indenização.

Oficialmente, os israelenses nunca disseram que pediriam desculpas pelo incidente envolvendo a flotilha, que resultou na morte de nove cidadãos turcos ? o grupo que patrocinou a ação também é da Turquia. O governo de Israel abriu uma investigação interna, mas rejeitou a participação da ONU. Tampouco concorda em pagar compensações.

Os dois países foram aliados militares por décadas. Mas, desde a Guerra de Gaza, a relação entre turcos e israelenses se deteriorou. Os EUA não têm interesse em um embate entre Israel e Turquia, que apenas prejudicaria as posições americanas na região, que atualmente ocupam o Iraque. De um lado, os israelenses são um dos principais aliados americanos no mundo, enquanto a Turquia integra a Otan.

Abbas. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse em encontro com o enviado dos EUA ao Oriente Médio, George Mitchell, que não haverá diálogo com os israelenses sem avanços na área de segurança e das fronteiras. O líder palestino acrescentou que a população palestina está perdendo interesse na solução de dois Estados. Shalit. Netanyahu, afirmou que Israel poderá libertar mil prisioneiros palestinos se o Hamas fizer o mesmo com o soldado israelense Gilad Shalit, capturado há quatro anos.

Netanyahu disse estar disposto a pagar "um preço alto" pela libertação de Shalit. A família do soldado iniciou no domingo uma campanha para pressionar o governo israelense a negociar com o Hamas, que o mantém refém.