Título: Para Irã, Lula fez apelo por falta de informação
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/08/2010, Internacional, p. A15

Teerã sugere que rejeitará proposta de abrigo para iraniana condenada a apedrejamento e diz que líder brasileiro é uma pessoa "muito emotiva"

correspondente / Genebra - O Estado de S.Paulo

O Ministério de Relações Exteriores iraniano deu sinais ontem de que rejeitará a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de receber no Brasil a iraniana condenada à morte por apedrejamento e disse que o líder brasileiro está mal informado sobre o caso.

A declaração do porta-voz da chancelaria iraniana, Ramin Mehmanparast, confirma que há um mal-estar entre os dois países por causa da proposta. Na segunda-feira, no site Jahan News, ligado ao setor mais conservador do governo iraniano, Lula foi acusado de interferir em assuntos domésticos.

"Até onde sabemos, Lula é uma pessoa muito humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso", disse Mehmanparast. "Podemos dar detalhes dos crimes dessa pessoa que foi condenada e, então, acho que o caso ficará esclarecido para ele."

Hoje, a Corte Suprema em Teerã realiza sua última audiência do julgamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada por adultério, e amanhã deve ser anunciada uma decisão definitiva. A pena de morte por apedrejamento pode ser revista. Sites de notícias do governo informam que a pena alternativa mais provável é o enforcamento.

Lula declarou que estaria disposto a receber Sakineh no sábado, dias depois de o chanceler Celso Amorim conversar com o governo iraniano sobre o tema. A declaração foi feita a poucas semanas de uma eventual retomada das negociações nucleares. As autoridades iranianas aceitaram voltar a dialogar sobre seu programa nuclear a partir de setembro. Mas queriam o Brasil - até então considerado um aliado que não interferia em assuntos domésticos - sentado à mesa de negociações, ao lado de europeus e americanos.

Brasil e Turquia fecharam um acordo nuclear com o Irã que permitiria a troca de urânio por combustível nuclear para um reator de pesquisas médicas. Americanos e europeus rejeitaram a proposta, pois ela não exigia que o Irã, em troca, desistisse de enriquecer urânio em seu território.

"Nós desconfiávamos de que isso ocorreria. Mas fechamos o acordo por consideração a Lula", disse ao Estado o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, duas semanas atrás.

Em Teerã, fontes diplomáticas admitem que, qualquer desgaste na relação com o Brasil nesse momento pode dificultar a negociação nuclear. Ainda assim, o tom usado pela chancelaria iraniana surpreendeu diplomatas que acompanham a relação bilateral.

Aliança oportuna. Diplomatas concordam que o número de aliados do presidente Mahmoud Ahmadinejad é cada vez menor e, portanto, o Irã não pode se dar ao luxo de se afastar do Brasil.

A rejeição da oferta brasileira de asilo a Sakineh foi confirmada por Sajad, filho da iraniana condenada. "Sajad pôde falar com a mãe por telefone e nos contou que ela ficou muito feliz com a proposta de Lula, mas sem muita esperança. Sajad também recebeu a notícia de que provavelmente a oferta brasileira seria rejeitada. O governo iraniano mostrou mais uma vez que é totalmente insensível", disse Mina Ahadi, presidente do comitê de apoio a Sakineh na Alemanha.

Para Ahadi, não basta Lula falar apenas de um caso. "Existem pelo menos 12 mulheres na mesma situação. Precisamos de uma ampla campanha internacional contra esse abuso contra as mulheres no Irã."

Em 2008, 346 pessoas foram executadas no Irã após serem condenadas pela Justiça, segundo a Anistia Internacional. Só a China executou mais gente.