Título: Chávez pede às Farc que deixem a luta armada e acerta encontro com Santos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 09/08/2010, Internacional, p. A11

Aproximação. Presidente venezuelano se compromete a encontrar novo líder colombiano amanhã ao meio-dia, em Bogotá; com a saída de Uribe, diálogo é retomado e Venezuela e Equador dão sinais de que pretendem colaborar com Colômbia no tema da guerrilha

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, se reunirá amanhã ao meio-dia com o novo líder colombiano, Juan Manuel Santos, em Bogotá. O anúncio foi feito ontem à tarde pela chanceler colombiana, Maria Angela Holguín, após encontro com seu colega venezuelano, Nicolás Maduro. Durante o dia, Chávez já havia selado a aproximação, ao exortar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a soltar todos os seus reféns.

As declarações do venezuelano e o agendamento da reunião indicam o fim de uma crise diplomática iniciada há duas semanas, quando o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, denunciou a presença das Farc na Venezuela. Chávez deu ontem sinais de que mudará seu discurso.

"A guerrilha colombiana não tem futuro pela via das armas", afirmou o venezuelano, em declaração na TV de seu país. "Os guerrilheiros devem se mostrar a favor da paz, mas com uma decisão convincente. Por exemplo, soltando todos os reféns. Por que uma guerrilha mantém gente sequestrada?"

Santos se mostra disposto a dialogar com as Farc se a guerrilha libertar todos os seus reféns, renunciar a "atos terroristas" e parar de recrutar crianças. Até então, diz que continuará com a popular política de Segurança Democrática, que marcou o governo de Uribe. A diferença é que enquanto a gestão Uribe foi marcada por atritos com a Venezuela e o Equador por causa da presença de guerrilheiros nos países vizinhos, Santos assumiu o cargo prometendo diálogo.

Chávez demonstrou em algumas ocasiões simpatia pela guerrilha. Em 2008, defendeu o reconhecimento das Farc como "grupo beligerante", o que desagradou o governo colombiano. Dias antes de deixar o cargo, Uribe entregou fotos e vídeos de guerrilheiros colombianos em território venezuelano para a Organização dos Estados Americanos (OEA), o que levou Chávez a romper relações diplomáticas com Bogotá, no dia 22.

Como Santos evitou fazer declarações sobre o recente conflito, o líder venezuelano adotou um tom conciliador desde a posse do colombiano. "Acreditamos que o novo governo começará a construir tudo o que Uribe destruiu", disse Chávez. "Estou muito feliz de ir a este encontro", reforçou ontem à noite.

A data foi estabelecida à tarde, em uma reunião de três horas entre a chanceler Holguín e o colega venezuelano, Nicolás Maduro, conversa da qual participou o secretário-geral da Unasul, Néstor Kirchner. O trio evitou se cumprimentar de maneira solene ao final do encontro. Isso foi interpretado como uma estratégia para que a imagem que encerrará a crise diplomática venha do encontro entre Chávez e Santos. "Hoje é o primeiro passo para restabelecer as relações com franqueza", disse a chanceler.

Antes da reunião, Holguín havia se encontrado por 45 minutos com o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño. Ele elogiou a iniciativa de Bogotá de entregar às autoridades equatorianas o computador do líder guerrilheiro Raúl Reyes apreendido por militares colombianos no Equador, em 2008 (mais informações nesta página).

Prejuízos. As razões de Santos para retomar logo a relação com os vizinhos não seriam ideológicas, mas pragmáticas. O atual presidente colombiano foi um dos mais duros críticos de Chávez . Quando ocupava o cargo de ministro da Defesa de Uribe, em 2008, ordenou o ataque ao acampamento de Reyes, no Equador, cuja Justiça emitiu ordem de extradição contra ele.

Por razões históricas e geográficas, Venezuela e Equador estão entre os principais parceiros comerciais da Colômbia. De acordo com dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatístico da Colômbia divulgados ontem, as exportações colombianas para a Venezuela caíram 71% no primeiro semestre deste ano por causa da crise. Para os colombianos, o prejuízo foi de bilhões de dólares.

Líder venezuelano veta embaixador dos EUA

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse ontem que não aceitará em Caracas o embaixador designado pelos EUA, Larry Palmer. Em uma sabatina no Congresso americano, Palmer disse que as Forças Armadas venezuelanas estavam com o moral baixo, contrariadas pela influência de Cuba na instituição. Chávez instruiu o presidente dos EUA, Barack Obama, a buscar outro candidato: "Como vou aceitar esse cavalheiro aqui?" / AP