Título: Inflação freia de novo em julho: 0,01%
Autor: Gonçalves, Glauber ; Saraiva, Alessandra
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/08/2010, Economia, p. B4

Queda nos preços de alimentos e bebidas mantém o IPCA praticamente estável e fica abaixo das expectativas dos analistas

A inflação ficou praticamente estável no mês de julho, forçando novas revisões para o resultado do ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve como parâmetro para o cálculo da meta inflacionária do governo, registrou leve alta, de 0,01%, em relação a junho, com uma contribuição decisiva do setor de alimentos e bebidas, cuja queda de preços surpreendeu analistas.

De acordo com os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), A taxa em 12 meses do IPCA até julho, de 4,6%, foi a menor desde janeiro deste ano, de 4,59%. Segundo a coordenadora de Índices de Preços do instituto, Eulina Nunes, este foi o terceiro freio consecutivo na taxa acumulada em 12 meses - uma "boa notícia" para o cumprimento da meta.

Na avaliação do consultor Fábio Romão, da LCA Consultores, o grupo de alimentos e bebidas teve uma queda superior à esperada em junho e julho. "Isso fez que o mercado reduzisse suas projeções de inflação para este ano, de algo em torno de 6% para um patamar próximo a 5%", afirmou.

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, acredita, porém, que o índice próximo a zero não representa uma tendência. "Isso é uma questão pontual, uma acomodação", disse o economista. "No segundo semestre, a demanda fica mais aquecida, mas a inflação deve fechar o ano um pouco abaixo das expectativas."

Destaques. Os alimentos "in natura" foram destaque entre os preços pesquisados pelo IBGE, em especial o tomate, que teve queda de 23,90% em julho. No primeiro trimestre, os preços desses alimentos subiram muito por causa de problemas climáticos que reduziram a oferta. Agora, os preços começam a cair.

"Podemos dizer que os alimentos ainda não "devolveram", por assim dizer, no IPCA, tudo que subiram no início do ano", afirmou Eulina Nunes.

Ela não descartou a possibilidade de uma continuidade de taxas negativas em alimentos e bebidas no curto prazo, mas ressaltou que não há como fazer previsões certeiras sobre o comportamento dos preços, que são muito voláteis e influenciáveis pelo clima.

Além de alimentos e bebidas, tiveram queda em julho os grupos vestuário (0,04%)e educação (0,03%). Entre os itens que registraram alta, estão habitação (0,54%), afetado pela aumento da energia elétrica; transporte (0,08%), puxado pelo elevação dos preços de transporte urbano; e saúde e cuidados pessoais (0,31%).

Alta de juros. O fato de a taxa oficial de inflação estar próxima da estabilidade em julho pode fazer com que o Banco Central interrompa o atual ciclo de aumento da taxa básica de juros (Selic), prevê o superintendente de economia e pesquisa da Fecomércio/RJ, João Carlos Gomes.

"Não há indicações que sustentem mais uma alta. Vemos uma acomodação da atividade econômica e indicadores bastante confortáveis", avalia.

Romão, da LCA, acredita que um fim do ciclo de aumento da Selic por parte do Copom seja poss[ível, apesar de a previsão da consultoria ser de aumento de meio ponto porcentual na taxa de juros básica.

"A atividade econômica no País vai evoluir de forma mais modesta", diz.

Já Freitas avalia que o aumento da taxa de juros deve ser de 0,25 ponto porcentual. "O Banco Central já deu sinal na última ata do Copom de que deveria diminuir o ritmo", prevê o ex-diretor do Banco Central.