Título: Santos recebe Chávez para reatar laços e traçar ação contra a guerrilha
Autor: Monteiro, Tânia
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/08/2010, Internacional, p. A16
Aproximação. Depois de dizer durante a campanha eleitoral que ele e Hugo Chávez eram como "água e óleo", novo presidente da Colômbia encontra-se hoje com líder venezuelano em Santa Marta; além da segurança, comércio será o tema prioritário em reunião
Depois de um fim de semana de negociações de seus chanceleres, o novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, agendaram para hoje um encontro no histórico balneário de Santa Marta, no Caribe colombiano. Além de tratar do reatamento das relações entre os dois países, suspensas desde 22 de julho, a reunião servirá para que o presidente Santos defina sua estratégia contra a guerrilha.
Além da questão da segurança e da cooperação da Venezuela para tentar evitar que Chávez dê guarida às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Santos vai tratar do comércio entre os dois países.
O local da reunião e a presença do secretário-geral da Unasul, Néstor Kirchner, foram decididos de modo que o encontro tenha um forte simbolismo político. Não fazer a reunião em Bogotá, capital da Colômbia, e sim na Quinta de San Pedro Alexandrino, em Santa Marta, onde morreu Simón Bolívar, tem importância para ambos. Não há uma afronta direta ao ex-presidente Álvaro Uribe, já que Chávez chegaria a Bogotá como se tivesse tomado conta do país. Se a reunião fosse em Caracas, haveria uma forte reação da opinião pública colombiana.
A presença de Kirchner no encontro, embora não estivesse prevista, foi defendida pelo Brasil. A justificativa é que esse gesto fortalece a Unasul e coloca o assunto na alçada do continente sul-americano, sem necessidade de interferência de órgãos com a participação dos Estados Unidos nem da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em conversa de 15 minutos por telefone, no início da noite de ontem, Santos agradeceu a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para "normalizar" as relações, segundo assessores do Planalto.
A questão das Farc e a possibilidade de Chávez participar de alguma negociação com os guerrilheiros não são discutidas publicamente pelo governo colombiano. Ainda assim, a chanceler colombiana, Maria Angela Holguín, tem dito que queria do venezuelano mais do que palavras. Os dois países suspenderam as relações diplomáticas depois que o ex-presidente Álvaro Uribe acusou Chávez de abrigar na Venezuela guerrilheiros.
Ontem, centenas de seguidores de Chávez no Twitter enviaram mensagens, reproduzidas pelo governo venezuelano, pedindo ao presidente que não fosse à Colômbia, sob a justificativa de que "o império", referindo-se aos EUA, seria capaz de qualquer coisa contra ele.
Para o presidente Santos, a reaproximação é importante também do ponto de vista comercial. Nos últimos dois anos, as exportações da Colômbia para a Venezuela sofreram uma importante queda de US$ 4 bilhões.
Em seu primeiro dia útil como presidente, Santos reuniu-se com o presidente da Corte Suprema, Jaime Arrubla, e pelo menos 70 magistrados. No governo Uribe, Executivo e Judiciário tiveram atritos. Os juízes conseguiram que Santos retire do Congresso o projeto que tira da Corte Suprema a competência de eleger o procurador geral. /COLABOROU LEONÊNCIO NOSSA
PONTOS-CHAVE
Farc na Venezuela O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe denuncia a presença de guerrilheiros das Farc na Venezuela, o que leva o presidente Hugo Chávez a cortar laços com Bogotá
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