Título: Cientistas contradizem governo sobre desastre
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Fonte: O Estado de São Paulo, 20/08/2010, Vida, p. A20
A Casa Branca diz que pelo menos metade do óleo derramado no Golfo do México foi recolhida, mas especialistas relatam 'nuvens' no fundo do mar
Cientistas americanos estão contradizendo a afirmação do governo dos Estados Unidos de que a maioria do óleo que vazou por cerca de três meses de um poço no Golfo do México foi recolhida. Uma das evidências é uma "nuvem" invisível de óleo de cerca de 34 quilômetros, que estaria no local. A existência dessa mancha foi anunciada ontem à tarde por pesquisadores do Instituto Oceanográfico Woods Hole, em Massachusetts. Ela havia sido observada no final de junho e, segundo os cientistas, dificilmente esse óleo foi consumido pelos micróbios que se alimentam de hidrocarbonetos, que operam melhor na água mais quente, perto da superfície, e não no fundo gelado, onde a nuvem foi encontrada.
Outro grupo de cientistas relatou a descoberta de gotículas de óleo no fundo do mar, perto da Flórida. "O óleo não foi embora", resume David Hollander, professor da Universidade do Sul da Flórida.
E pesquisadores de universidades questionaram nesta semana os números do desastre apresentados pelo governo. Segundo afirmou no início do mês Carol Browner, a líder na Casa Branca sobre clima e energia, "mais de três quartos do óleo se foi". Mas o relatório oficial diz que cerca de 50% dos 4,9 milhões de barris de petróleo (780 milhões de litros) teriam sido recolhidos, dissolvidos ou evaporados.
O governo afirma que jogou cerca de 3,8 milhões de litros de dispersantes químicos no golfo, quebrando o óleo em gotículas que poderiam ser consumidas mais facilmente por bactérias - mas isso também faz com que o óleo afunde mais rapidamente.
Para Ian MacDonald, professor da Universidade do Estado da Flórida, os números do governo "enganam". Ele afirma que o governo faz declarações otimistas e ignora a quantidade de gás que vazou com o óleo do poço Macondo. Segundo ele, o óleo causará danos por décadas. "A marca do óleo da BP será detectável no ambiente marinho pelo resto de minha vida." As afirmações de MacDonald são corroboradas por pesquisadores da Universidade da Geórgia, que divulgaram estudo semelhante (mais informações nesta página).