Título: Pedir subsídio e tarifa de proteção está errado
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/09/2010, Economia, p. B1

Presidente da Federação do Comércio de São Paulo

O presidente da Federação do Comércio e Serviços do Estado de São Paulo (Fecomércio), Abram Szajman, é contra qualquer tentativa de fechar a economia. Ele diz que o enfoque da indústria está errado: "ao invés de pedir subsídio e tarifa de proteção, devíamos fazer a reforma tributária". A seguir trechos da entrevista.

O presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, disse que o Brasil precisa se fechar. O senhor pensa o mesmo?

Um pouco de história sempre faz bem. Na década de 80, o Brasil era um país fechado e exportava US$ 20 bilhões. Em 2000, as exportações chegava a US$ 50 bilhões. Hoje, dez anos depois, o Brasil exporta US$ 190 bilhões. A indústria está crescendo quase 10%. Como é que a indústria tem problemas? O que acontece é que o mundo está em transformação. Do mesmo jeito que houve a mudança da agricultura para fase industrial, estamos vivendo um ciclo novo de comércio e serviços.

Vários setores estão pedindo ao governo tarifas de importação mais altas e sobretaxas contra dumping. Qual pode ser o impacto para a economia?

O enfoque está errado. Ao invés de pedir subsídio e tarifa de proteção, devíamos ver os problemas em segmentos específicos. É como proibir que os automóveis circulem para evitar o trânsito. Não adianta. Tem é que fazer metrô. Para combater as dificuldades no comércio exterior, precisamos de reforma tributária e redução de juros.

O aumento das importações reduz o saldo da balança e ajuda a provocar um déficit nas contas externas. O senhor não está preocupado com isso?

A previsão de déficit nas contas externas é de US$ 50 bilhões, que vai ser coberto com investimentos produtivos, em ações e renda fixa. Tanto existe dólar suficiente que o Banco Central tem que comprar reservas a um custo alto. Enquanto tivermos mercado interno forte e o mercado internacional acreditando no Brasil, não vejo motivos para essa preocupação.

O câmbio está valorizado?

É o preço do sucesso. Se estivéssemos sem reservas, sem investimentos, e com preços baixos de commodities, estaríamos com o dólar a R$ 5. Infelizmente para quem quer dólar alto, o Brasil está numa situação boa. A importação não é um mal, mas bem que desenvolve o País e cria competição.

Mas ao importar o Brasil gera emprego na China.

Não vejo assim. Estamos hoje com o nível de desemprego mais baixo dos últimos tempos. Temos é que formar mais mão de obra qualificada.

O senhor acredita que existe desindustrialização no Brasil?

Como se pode falar em desindustrialização ou doença holandesa? Isso é uma falácia. O que existe é uma mudança de patamar da indústria, que vai ter uma participação menor no PIB brasileiro.

Os chineses estão investindo em setores estratégicos, como terras e minas. É preocupante?

O mundo é feito de ciclos. Estamos vivendo um ciclo em que quem tem dinheiro no mundo é o chinês, com US$ 2,5 trilhões que ele conseguiu guardar. Se o Brasil não quer dinheiro chinês, alguém vai querer. O que falta uma regulamentação para a proteção do subsolo brasileiro, cobrando de todos.