Título: Brasil demora mais para responder à rebelião no Equador
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/10/2010, Internacinal, p. A33
Em uma atitude rara desde janeiro de 2003, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva desviou-se do seu natural ativismo e assumiu uma posição discreta diante do episódio da rebelião de policiais no Equador, na quinta-feira. A iniciativa de convocar a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para dois encontros ontem, em Buenos Aires e em Guayaquil, foi lançada pelos presidentes do Peru, Alan García; da Venezuela, Hugo Chávez; e da Argentina, Cristina Kirchner. O presidente Lula não se movimentou como seus colegas da região.
As razões não se restringem às eleições presidenciais brasileiras de amanhã.
Apesar de ter considerado altamente grave a revolta de uma corporação armada em um país onde as instituições democráticas ainda são frágeis, o Itamaraty não se deixou sensibilizar pelas denúncias do presidente equatoriano, Rafael Correa, de que se sofrera uma tentativa de golpe de Estado.
A diplomacia brasileira conhece o temperamento de Correa. E também se escaldou com as críticas que ainda recebe por seu ativismo e envolvimento direto no caso de Honduras, onde efetivamente houve um golpe de Estado em 28 de junho de 2009.
Além disso, dentre todas as reações indesejáveis dos vizinhos sul-americanos à política de generosidade do governo Lula, a única jamais digerida em Brasília foi a de Correa.
Em 2008, Correa valeu-se da expulsão da Construtora Norberto Odebrecht do Equador como elemento eleitoral e anunciou a suspensão do pagamento de sua dívida com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), medida que prejudicaria todos os países da região que são membros do Convênio de Créditos Recíprocos (CCR). Correa acusava a empresa por falhas na obra da Usina Hidrelétrica de San Francisco, construída para afastar o risco de colapso no abastecimento energético no Equador, e por fraudes no financiamento.
Entretidos, de fato, com as eleições de domingo, Lula e seu assessor para assuntos internacional, Marco Aurélio Garcia, não se envolveram diretamente na superação da suposta quartelada no Equador. Mas, tampouco o chanceler Celso Amorim fez questão de figurar nos encontros agendados. Preferiu destacar para a tarefa o embaixador Antônio Patriota, secretário-geral das Relações Exteriores e nome que carrega as maiores apostas para assumir o Itamaraty em um eventual governo de Dilma Rousseff.