Título: O Brasil não é mais um país low cost
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/10/2010, Negocios, p. B18

Jean-Michel Jalinier, Diretor-Presidente da Renault Brasil

Com a estabilidade macroeconômica e a sobrevalorização do real, o Brasil pode estar perdendo o rótulo de barato. O alerta foi feito pelo diretor-presidente da Renault Brasil, Jean-Michel Jalinier. Chefe de uma montadora cujas linhas de montagem estão ociosas em 50%, Jalinier aposta no crescimento interno, mas demonstra uma frustração: não consegue exportar a partir do País. A conjuntura, adverte, favorece mais a transferência de linhas de produção para a Argentina ou o México. A seguir, a síntese da entrevista exclusiva ao Estado.

O Brasil é um dos fenômenos do Salão do Automóvel de Paris. Todos aqui falam sobre crescer no Brasil, na Índia e na China. Qual é a sua visão do mercado brasileiro?

O primeiro problema é que a soma das participações no mercado sempre será de 100%. Não é possível ir além. Se nós somarmos as ambições de cada um, chegaremos a mais de 100%. O Brasil é um mercado já muito competitivo, um cenário que será preservado ou mesmo ampliado. Nós vimos nos últimos meses o efeito. No fim da redução do IPI, no fim de março, os incentivos acabaram, o mercado baixou por mais ou menos dois meses. Então a pressão comercial aumentou. O conjunto das montadoras ampliou os meios para atrair o cliente. A competição aumentou e o preço baixou para o consumidor. Hoje, apesar do aumento do IPI, o consumir paga mais barato do que pagava pelo mesmo veículo há um ano.

E qual é a sua previsão para o horizonte de dois ou três anos?

Não acredito que os preços continuarão caindo. Há uma inflação que continuará em torno de 5% nos próximos anos. Haverá um crescimento muito forte, que neste ano passará a 7%. Há ainda uma inflação salarial bem importante, superior aos 5% da inflação. A inflação vai se traduzir no preço, porque os fatores que compõem o custo estão derivando de forma importante.

E qual é o impacto desse cenário para a indústria brasileira?

O Brasil perde bastante em competitividade internacional. Se lembramos os fatores internos, como a valorização do real em relação do dólar e ao euro, o que se tem é um nível de competitividade ruim hoje. O Brasil não é mais um país low cost. Trata-se de um mercado desenvolvido, caro, e precisamos fabricar produtos para vender no Brasil.

É preciso absolutamente produzir no Brasil para poder vender bem no Brasil?

Eu creio que sim. É preciso produzir no Brasil para vender no Brasil. Em longo termo, o melhor é ter uma estrutura de custo na qual compraremos nossas peças em reais, pagaremos nosso pessoal em reais, venderemos em reais. Toda a cadeia produtiva precisa ser em real. Assim a moeda poderá flutuar sem impacto nos negócios. Hoje a falta de competitividade faz com quem não possamos exportar, ou exportar muito pouco. É uma pena para o país. O Brasil é o quarto maior país do mundo em tamanho de mercado, mas apenas o sexto ou sétimo maior produtor de veículos. Há uma diferença causada pela perda de competitividade. Exportar permite produzir mais, investir mais. Logo essa competitividade faz falta.

Se o Brasil não é um país low cost, ele pode vir a perder linhas de montagem, como acontece na Europa?

Outro aspecto é da falta de competitividade é que podemos ter mais interesse em produzir carros na Argentina, por exemplo. Com a taxa de câmbio entre o peso e o real, fica interessante. Tem ainda o México, que é muito interessante do ponto de vista da competitividade em relação ao Brasil. É preciso que fiquemos muito atentos para preservar a competitividade em relação ao cenário internacional. O governo brasileiro precisa ficar atento a esse problema para que em curto e médio prazos nós continuemos competitivos. Ou veremos a transferência das linhas de produção para a Argentina e o México, onde os fornecedores estão instalados. De lá poderíamos exportar.

Renault teria interesse de exportar a partir do Brasil?

Sim, muito. Se a base fosse competitiva, sim. Nossas fábricas são grandes e teriam todas as condições para serem competitivas. Se estivermos em um cenário macroeconômico competitivo, não haverá razões para não exportarmos muito.

E no mercado brasileiro, quais são as ambições da Renault, em termos de investimentos e de lançamentos?

Nós nos instalamos no Brasil com produtos que servem como pilares, como Clio, Mégane. Esses modelos precisam viver e, no futuro, serem substituídos. Esses são os dois primeiros pontos. Ao viverem, vamos entrar em um timing que exigirá reestilizações e renovações em intervalos regulares, da ordem de seis anos, a média do mercado brasileiro. Hoje temos um conjunto que funciona bem, com uma direção de produtos bem avançada, um bom design, uma boa força de engenharia. Temos 750 engenheiros na América Latina, dos quais 600 no Brasil. Temos forças de compra completas e autônomas. Logo, temos tudo o que é necessário para fazer nossos produtos viverem. Apesar disso, temos lacunas na cobertura do mercado. Precisaremos aumentar a oferta de produtos em segmentos nos quais não estamos hoje.