Título: Líderes vão à Unasul em defesa de equatoriano
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/10/2010, Internacional, p. A21

Maioria dos presidentes da região partiu ontem mesmo para reunião na Argentina

Convocados pela Unasul para um encontro de emergência na sede da organização, em Buenos Aires, os primeiros presidentes sul-americanos chegaram ontem à noite à Argentina. O grupo deve definir hoje uma estratégia para assegurar que o líder equatoriano, Rafael Correa, permaneça no poder. O Brasil será representado na reunião de chefes de Estado pelo ministro interino das Relações Exteriores, Antonio Patriota.

José Jácome Rivera/EFEProtesto. Policiais queimam pneus no Regimento de Polícia de Quito; agentes discordam da perda dos incenticos profissionais "A situação no Equador é uma ameaça à democracia na América Latina e a seus povos. Não vamos permitir (um golpe). O limite é Honduras", disse o chanceler argentino Héctor Timerman. Ontem à noite, havia expectativa pela chegada dos presidentes da Bolívia, Evo Morales, da Colômbia, Juan Manuel Santos, do Chile, Sebastián Piñera, e do Peru, Alan García. O uruguaio José Mujica foi o primeiro a desembarcar em Buenos Aires para a reunião, que seria presidida pela argentina Cristina Kirchner. O secretário-geral da Unasul, Néstor Kirchner, expressou seu compromisso com Correa ante a tentativa de "sublevação da ordem constitucional de setores corporativos das forças de segurança".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu sua ausência à campanha eleitoral brasileira (mais informações ao lado). O paraguaio Fernando Lugo também não comparecerá, por causa do tratamento que se submete contra um câncer.

Em nota, o Itamaraty disse ontem que "o governo brasileiro tomou conhecimento, com profunda preocupação, dos graves acontecimentos no Equador". Acrescentou ainda que "o Brasil deplora os atos de violência e de desrespeito às instituições e condena energicamente todo e qualquer tipo de ataque ao poder civil legitimamente constituído e à ordem constitucional do Equador". Por fim, a nota apela para que "seja restabelecida de imediato a ordem interna no Equador, com pleno respeito à democracia e aos direitos humanos".

Diversos governos manifestaram ontem sua preocupação com a possibilidade de um golpe de Estado no Equador. O da Espanha, por meio do chanceler Miguel Ángel Moratinos, disse que seu país "não permitiria que isso ocorresse". O regime cubano também defendeu a normalidade democrática na região e desafiou os Estados Unidos a condenarem a rebelião militar equatoriana. Horas depois, os americanos deram "seu firme apoio" ao presidente Rafael Correa e pediram a restauração da ordem no Equador. "Washington deplora a violência e o caos e expressa seu completo apoio ao presidente Rafael Correa e ao governo democrático no Equador", disse a secretária americana de Estado, Hillary Clinton.

"Pedimos a todos os equatorianos que se unam e trabalhem com base nas instituições democráticas para obter a rápida e pacífica restauração da ordem", completou a chefe da diplomacia americana.

A representante de Washington na Organização dos Estados Americanos (OEA), Carmen Lomellin, já havia condenado "qualquer tentativa de violação do processo democrático e da ordem constitucional no Equador".

"Apoiamos o governo democrático no Equador. Apoiamos o governo do presidente Correa (...) e alentamos à resolução da disputa por meio do respeito e do diálogo envolvendo todas as partes".

Os países membros do Mercosul condenaram "de maneira veemente" os protestos militares de ontem no Equador e pediram a restauração imediata da ordem constitucional no país sul-americano. Em comunicado emitido pelo Mercosul no começo da noite desta quinta-feira, o bloco expressou "profunda preocupação com os sérios eventos que estão ocorrendo hoje no Equador". "As ações representam uma clara tentativa de insubordinação constitucional por setores das forças de segurança naquele país", disseram autoridades do Mercosul em nota oficial.

Resposta da OEA. Escaldada pelo impacto de seu atraso em responder à crise política de Honduras, em junho de 2009, a OEA aprovou por unanimidade ontem uma resolução de "repúdio a qualquer tentativa de rompimento da ordem institucional" no Equador e de "firme respaldo ao governo constitucional" do presidente Rafael Correa. O texto não chegou a mencionar diretamente que havia, ontem, uma tentativa de golpe de Estado no Equador, apesar de o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, ter dito que se tratava de um golpe.

Os Estados Unidos, o México e até mesmo o Brasil evitaram qualificar de golpe a rebelião dos policiais equatorianos, que condenaram abertamente. Mas a versão sobre um golpe em andamento foi apresentada pela embaixadora do Equador, María Izabel Salvador, e defendida por representantes de países como Venezuela e Bolívia durante a reunião extraordinária do Conselho Permanente da organização.

"Não há dúvidas de que essa é uma tentativa de golpe de Estado", declarou o chileno Insulza, logo após a aprovação da proposta de resolução. "Estamos diante de uma situação muito grave. Temos de evitar que esse golpe venha se consumar."

O Conselho Permanente continuará mobilizado até que a situação no Equador volte à normalidade. A qualquer momento, os representantes dos 34 países-membros podem ser convocados para uma nova reunião. Segundo a Carta Democrática Interamericana, o Equador pode ser suspenso da OEA se o golpe se efetivar, como ocorreu com Honduras no ano passado, quando o presidente Manuel Zelaya foi deposto.

Em paralelo à ação da OEA, o Chile trabalhava na redação de um comunicado de condenação do Grupo do Rio à sublevação no Equador.

DEPOIMENTO

Simone Flores,"Ninguém pode sair do hotel"funcionária do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)

Jotabê Medeiros

A historiadora gaúcha Simone Flores, de 45 anos, é coordenadora do Sistema de Museus do Rio Grande do Sul e está em Quito para um encontro de museologia. É a única brasileira no evento. Com ela, estão hospedados no Hotel Quito cerca de 60 pessoas, representantes da museologia do Uruguai, Espanha, Colômbia, México e Peru. "O clima entre a gente é de ansiedade. A recomendação dos organizadores do evento, que são do Ministério da Cultura do Equador, é para ninguém sair do hotel. O aeroporto está fechado. O clima no centro da cidade é mais delicado. O noticiário está normal. Internet e telefone funcionam. As pessoas que estão aqui e são da cidade estão preocupadas, especialmente os diretores dos museus que ficam no centro. Na TV, a cena mais forte é presenciar as pessoas viverem essa ansiedade novamente."

40 anos de instabilidade política

1970 José María Velasco torna-se líder de facto

1972 Velasco é deposto; general Guillermo Lara assume

1979 País volta à democracia; Jaime Roldós Aguilera é eleito

1987 Presidente León Cordero é sequestrado pelo Exército

2000 Mahuad é deposto numa revolta liderada por Lucio Gutiérrez

1998 Interino, Fabián Alarcón convoca eleição; Jamil Mahuad vence

1997 Bucaram é destituído por incapacidade mental; vice assume

1996 Abdala Bucaram é eleito presidente

1995 Vice Alberto Garzoni foge para a Costa Rica

2000 Vice de Mahuad, Gustavo Noboa, cumpre o mandato

2003 Gutiérrez é eleito, mas é derrubado por protestos em 2005

2005 Vice Alfredo Palacios assume e cumpre o mandato até 2007

2007 Rafael Correa é eleito para seu primeiro mandato

2009 Após reforma constitucional, mandato de Correa é ratificado

 Tópicos: , Internacional, Versão impressa