Título: Paquistão fecha rota usada pela Otan
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/10/2010, Internacional, p. A24
Bloqueio do envio de suprimentos a tropas é represália por morte de paquistaneses
O Paquistão determinou ontem o fechamento de uma das mais importantes rotas usadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para levar suprimentos por terra a suas tropas no Afeganistão, em uma das mais graves crises envolvendo o governo de Islamabad e os Estados Unidos desde o início da guerra contra o Taleban e a Al-Qaeda em 2001. Caminhões tanques e com suprimentos para as forças estrangeiras no Afeganistão foram bloqueados no posto de fronteira de Torkham, perto da cidade de Peshawar. A decisão de fechar a rota foi tomada pelo governo paquistanês depois que um bombardeio da Otan matou, acidentalmente, segundo as autoridades militares, três soldados paquistaneses. Na avaliação do governo de Islamabad, a ação violou a soberania do Paquistão.
Akhtar Gulfam/EFESegurança. Soldado paquistanês monitora transporte de suprimentos para as forças da Otan De acordo com autoridades da Otan, helicópteros da aliança atlântica estavam combatendo militantes no Afeganistão, perto da fronteira na região de Kurram, quando foram alvejados a partir do Paquistão. Em resposta, afirma a Otan, os militares dispararam contra pessoas que estavam armadas no lado paquistanês. Não ficou claro se eram os mesmos três soldados mortos que teriam disparado ou se foi um erro. Os soldados trabalhavam como guardas na fronteira. Um comunicado da Otan informou que, agindo em defesa própria, as naves da força de segurança entraram no espaço aéreo paquistanês, matando várias pessoas armadas. Tanto a Otan quanto o governo paquistanês estão investigando o incidente.
Este foi o quarto ataque em uma semana na área fronteiriça, onde militantes circulam de um lado para o outro sem restrições. O Exército paquistanês praticamente inexiste na região, controlada por tribos aliadas de militantes da Al-Qaeda e do Taleban.
Ataques com drones. Nesta semana, também foram divulgados dados indicando que setembro foi o mês com maior número de ataques da CIA (serviço secreto dos EUA) utilizando aviões não tripulados (drones) contra militantes no Paquistão. Os ataques estariam relacionados aos planos de atentados em capitais da Europa e nos EUA, descobertos pelos serviços de inteligência de vários países. Já os bombardeios da Otan foram realizados em aparelhos tripulados e sem coordenação com autoridades paquistanesas, diferentemente do que ocorre no caso dos drones.
O fechamento na rota de suprimentos, que não é a única usada pelas forças da Otan, não deve afetar no curto prazo as operações militares da organização no Afeganistão. A expectativa é encontrar uma saída para o problema não se agravar no longo prazo.
Negociações foram iniciadas ontem mesmo. O diretor da CIA, Leon Panetta, que estava em Islamabad, reuniu-se com autoridades paquistanesas. Elas lhe disseram que essas incursões não serão mais toleradas. "Nós veremos se somos inimigos ou aliados", disse o ministro do Interior do Paquistão, Rehman Malik, depois de se reunir com Panetta.
O Paquistão é um crucial aliado dos EUA em seus esforços para estabilizar o Afeganistão, mas analistas dizem que as incursões da Otan e o bloqueio da rota de abastecimento da aliança atlântica destacam as crescentes tensões no relacionamento entre os dois países. / AP e REUTERS