Título: Previ descarta sair da Neoenergia e quer fundir empresa com a CPFL
Autor: Friedlander, David ; Tereza, Irany
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/10/2010, Negocios, p. B12
Negociações. A construtora Camargo Corrêa, a espanhola Iberdrola e a Previ, os principais acionistas das duas empresas, devem se reunir após as eleições para começar a discutir a união das operações; projeto, porém, ainda está na fase embrionária
Apesar do forte interesse da Camargo Corrêa, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) e o próprio Banco do Brasil não pretendem vender suas participações na Neoenergia para a empreiteira. No lugar disso, o fundo e o banco começam a estudar a viabilidade de uma fusão da Neoenergia com a CPFL, o que criaria uma megaempresa do setor de energia.
A Previ tem posição de destaque no processo, porque possui presença relevante nas duas pontas. Divide com os espanhóis da Iberdrola o controle da Neoenergia e com a Camargo Corrêa o comando da CPFL. Em conversas separadas, todos eles teriam concordado em sentar para discutir o assunto formalmente. Uma primeira reunião entre eles deve ser marcada para depois das eleições, ainda em outubro.
Para assessorá-los nas negociações, a Previ e o Banco do Brasil contrataram o banco Morgan Stanley. A Camargo, por meio da CPFL, contratou o BTG Pactual. A Iberdrola, até o momento, não apresentou um assessor financeiro específico para o assunto. Oficialmente, nem Neoenergia nem CPFL, ou mesmo os acionistas das duas empresas, comentam sobre as negociações.
CPFL e Neoenergia são duas das maiores empresas privadas do setor elétrico brasileiro. Com cerca de 18 milhões de clientes, a CPFL responde por 13% da distribuição nacional de energia, e opera em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Minas Gerais. A Neoenergia é forte no Nordeste, com presença na Bahia, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. O faturamento das duas juntas atingiria mais de R$ 25 bilhões.
Rumores. A contratação do Morgan Stanley e do BTG detonou rumores de que a Previ poderia vender, para a Camargo, sua participação na Neoenergia ou mesmo na CPFL. Essa é uma aposta antiga do mercado. Tempos atrás, o fundo efetivamente discutiu a venda de sua participação para a empreiteira, mas a operação emperrou.
A nova diretoria da Previ, há quatro meses no cargo, quer levar a discussão para o campo da fusão das duas empresas. Procurada, a Previ não quis falar sobre o assunto.
"As discussões ainda são muito embrionárias, até porque é preciso esperar a definição do próximo governo", afirma um executivo envolvido nas conversas. "Mas a Previ diz que a venda de suas participações não está na mesa neste momento. Eles querem discutir a formação de uma nova companhia, por meio da fusão da CPFL com a Neoenergia". Procurada, a Previ enviou uma nota negando a intenção de vender seus ativos.
Um executivo envolvido nas negociações lembra que a fusão se enquadra na estratégia do governo Lula de incentivar a formação de grandes grupos empresariais, política provavelmente replicada num eventual governo de Dilma Rousseff, a favorita nas pesquisas de intenções de voto.
Dificuldades. Mesmo assim, juntar as duas empresas não seria uma tarefa fácil. Quem comandaria a nova companhia? De acordo com duas fontes ouvidas pela Agência Estado, a associação com a Camargo Corrêa não é uma proposta com boa acolhida dentro da Iberdrola. Entre as justificativas dos espanhóis estaria o conflito de interesses de ter uma empreiteira nas duas pontas do negócio: a construção de empreendimentos, como usinas hidrelétricas, e sua operação.
A Neoenergia, ao contrário da CPFL, não é uma empresa com ações negociadas em bolsa. O acordo de acionistas da empresa prevê que qualquer transferência de controle só pode ser efetivada com pagamento em dinheiro, descartando a possibilidade de troca de ações.
Gigante
R$ 25 bi seria o faturamento da empresa formada pela união da CPFL, que atua em São Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul, com a Neoenergia, forte no Nordeste
PARA LEMBRAR Iberdrola entrou no País em 1997
A maior companhia de energias renováveis do mundo, a espanhola Iberdrola, fincou os pés no mercado brasileiro no final da década de 90 com o processo de privatização do setor de energia. Em 1997, o grupo adquiriu, por meio de um leilão de privatização, o controle acionário da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia - Coelba, por R$ 1,7 bilhão. Hoje, a empresa controla 39% da Neoenergia, empresa que administra as distribuidoras Coelba, da Bahia, Celpe, de Pernambuco, e Cosern, do Rio Grande do Norte. No mercado de geração, a espanhola foi das empresas que mais teve participação nos leilões de energia eólica realizado em dezembro de 2009 e agosto de 2010.