Título: Novo indício de elos ETA-Venezuela faz Espanha subir o tom com Chávez
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2010, Internacional, p. A6

Sob suspeita. Dois integrantes da organização basca detidos por Madri confessam ter recebido treinamento de guerrilha em território venezuelano; chancelaria espanhola cobra esclarecimentos, mas Caracas volta a negar envolvimento com separatistas

A Espanha apresentou ontem novas denúncias sobre supostos vínculos entre a Venezuela e a organização separatista basca ETA. Desta vez, a chancelaria espanhola solicitou a Caracas esclarecimentos no marco da "cooperação bilateral antiterrorismo", depois de dois militantes do grupo basco terem confessado que receberam treinamento na Venezuela. O governo Hugo Chávez, porém, voltou a negar que tenha contatos com a ETA. Detidos na semana passada na Espanha, Juan Carlos Besance Zugasti e Xavier Atristain Gorosabel confessaram, em interrogatório policial, que receberam "cursos de formação" em território venezuelano. A informação foi revelada ontem pelo juiz espanhol Ismael Moreno. Zugasti e Gorosabel teriam recebido na Venezuela instruções para codificar mensagens, além de treinamento com armas de fogo, entre julho e agosto de 2008. A passagem pela Venezuela teria sido uma das etapas para a formação de uma nova célula da ETA, que foi batizada de "Comando Imanol". Ainda de acordo com a Justiça de Madri, o responsável pela viagem à América do Sul e pelo curso dos dois militantes seria Arturo Cubillas, acusado de ser o "embaixador da ETA" na capital venezuelana. Cubillas recebeu refúgio na Venezuela em 1989 e hoje é acusado de ser o representante da organização separatista para a América Latina. Casado com uma venezuelana, ele chegou a ocupar o cargo de diretor do Escritório de Administração e Serviços do Ministério da Agricultura e Terras do governo Chávez.

Os dois integrantes da ETA que relataram os vínculos com a Venezuela teriam também recebido treinamento em Lutz Saint Sauver, cidade francesa na região dos Pirineus. Eles foram presos na semana passada com cem quilos de explosivos na região basca e foram transferidos ontem para uma prisão de segurança máxima.

Segundo o jornal espanhol El País, o grupo basco teria trocado a França pela Venezuela como principal local de refúgio por causa da cooperação entre Paris e Madri. "(A Venezuela) é mais segura que a França", teria afirmado um dos principais líderes do grupo basco, Mikel Carrera, segundo o diário de Madri.

Farc. O embaixador da Venezuela em Madri, Isaías Rodríguez, rebateu todas as acusações da Justiça espanhola. "O governo venezuelano não tem nenhum vínculo nem nada que ver com a ETA", disse o diplomata. "Não temos nenhuma relação com organizações terroristas", completou Rodríguez.

Os supostos elos da ETA com a Venezuela já haviam azedado as relações entre Madri e Caracas no início do ano. Em março, o juiz espanhol Eloy Velasco acusou um alto funcionário do governo venezuelano de intermediar os laços entre o grupo basco e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Integrantes da ETA teriam sido levados em 2007 por um militar de Caracas a um lugar na selva - dentro do território venezuelano -, onde receberam instruções para manejo de explosivos. O curso, acusa a Espanha, teria sido ministrado por dois guerrilheiros colombianos.

No processo revelado ontem, o juiz Moreno afirma ainda que, enquanto os dois militantes recebiam treinamento na Venezuela, em 2008, Chávez fez visita oficial à Espanha.

PARA LEMBRAR Grupo basco esforça-se por apoio na região

Um dia antes da prisão de Juan Carlos Besance Zugasti e Xavier Atristain Gorosabel, na quarta-feira, uma operação policial tinha detido na Espanha sete pessoas relacionadas ao movimento Askapena, uma divisão da ETA encarregada de difundir as atividades e angariar apoio para o grupo separatista no exterior, principalmente na América Latina. A polícia e a inteligência colombianas têm denunciado há vários anos as conexões da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com o grupo basco.

PONTOS-CHAVE

829 pessoas foram mortas em atentados da ETA nos últimos 40 anos. Entre as vítimas estão policiais, civis e políticos da oposição. Madri e Barcelona foram os principais alvos da violência

1968: primeiro atentado mortal da ETA em San Sebastian 1973: assassinato do primeiro-ministro Luis Carrero Blanco 1997: sequestro e morte do político Miguel Blanco; 6 milhões protestam contra a ETA (foto)

País Basco Possui 20 mil km2 e é dividido em sete territórios: quatro na Espanha e três na França. São 3 milhões de habitantes. É um dos polos industriais mais influentes da Espanha

MIKEL CARRERA UM DOS PRINCIPAIS LÍDERES DA ETA "(A Venezuela) é mais segura que a França (para treinamento)"